Para reflectir
Maio 27, 2008, 9:46 pm
Filed under: Em foco

(Artigo da autoria de Pippo, leitor assíduo deste blog e participante regular nos debates gerados no mesmo.)

A questão do aumento do preço dos combustíveis é apenas mais uma demonstração de como a economia evolui ao sabor da especulação e não ao sabor da realidade.

Até ao momento não nos foi cabalmente explicado este brutal aumento de preços do petróleo, e tudo levaria a supôr que há quebras na produção. Nada mais falso. Na verdade, não tem havido uma redução da produção, bem pelo contrário. Países como a Rússia, a Venezuela e os países árabes têm mantido ou aumentado a produção de petróleo e gás natural. Contudo, a especulação derivada da espectativa de procura, sobretudo das economias emergentes (vide China e Índia) ou a ameaça de desestabilização regional (Iraque e Irão, Venezuela) são umas das explicações para o aumento exagerado do preço do petróleo.
Esse aumento tem efeitos perversos e inauditos relativamente à restante economia. O caso mais actual e, diria eu, mais perigoso, é o do aumento do preço dos cereais.

Este aumento tem-se verificado por duas razões: o aumento dos custos e o aumento dos preços especulativos. Vamos por partes.

Em primeiro lugar, as agriculturas de escala, economicamente relevantes, estão dependentes da mecanização. A maquinaria agrícola depende de combustível, pelo que o aumento deste comporta o aumento do custo final da produção (”Agora estamos a pagar a subida dos custos dos combustíveis, os adubos duplicaram de preço, o custo das sementes também disparou”, explica Ricardo Costa, técnico da associação de agricultores do distrito de Setúbal. “No ano passado, o custo de produção era de 650/700 euros por hectare, agora é de 750/850 euros” in Diário de Notícias, 24/05/2008). Ontem mesmo saiu uma reportagem na RTP na qual um jovem agricultor se queixava do aumento do preço do gasóleo agrícola – comparticipado pelo Estado – em 30%! Por fim, o transporte dos cereais da zona de produção para a de distribuição acresce ao preço final para o consumidor.

Em segundo lugar temos a especulação. Esta resulta da crise financeira internacional que levou os investidores a apostar em bens seguros (ouro, por exemplo) e nos cereais. E porquê nos cereais? Porque, se por um lado, houve fraca produção em países como os EUA, a Índia e o Canadá, por outro surgiu um interesse crescente na utilização de cereais, mormente o milho, para a produção de bio-combustível [pessoalmente comecei a pensar nas consequências do bio-combustível aquando da recente viagem do Presidente Lula a Portugal]. O bio-combustível, que é basicamente um álcool, apresenta-se como uma alternativa “verde” aos hidrocarbonetos como fonte de energia. Contudo, não é isento de problemas. Por um lado, o bio-combustível não é “verde”, como se diz, pois ele também polui, mais que não seja durante a fase de produção. Por outro lado, o bio-combustível tem um lado perverso: é que para se produzir esse combustível têm de ser utilizadas enormes extensões de terrenos agrícolas que de outro modo seriam utilizadas para produzir alimentos. Para produzir 50 litos de bioetanol são necessários 250 quilos de milho, que permitiriam alimentar uma criança durante um ano.

Ora, de momento basicamente apenas o milho (cerca de 30% da produção, nos EUA) e a cana do açúcar (utilizando terrenos pobres, no Brasil) são utilizadas para esse fim. Mas a espectativa de um crescimento da produção e utilização de bio-combustíveis, nomeadamente na UE, fez disparar os preços especulativos dos cereais de tal forma que são neste momento encarados como um bom investimento bolsista.

Ironicamente, uma das medidas neste momento estudadas pela Comissão Europeia é a de aumentar a produção agrícola e as quotas de leite. Ou seja, a mesma EU que durante anos pagou aos agricultores para deixarem de produzir, agravando a dependência alimentar (o mais grave dos erros!) dos países europeus, vem agora propôr o aumento da produção. A bem da estabilidade dos preços, entenda-se!


12 comentários so far
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E bom, por sinal.
Abraço,

Comentar por pintoribeiro

No seu “Manual de Estratégia Subversiva”, o general Vo Nguyen Giap frisou constantemente que a luta pela libertação nacional e construção da sociedade socialista estava intimamente ligada, mesmo dependente, da luta pela terra, pela libertação do feudalismo fundiário e pela satisfação da independência económica da população maioritariamente agrícola.

Dentro de alguns dias uma plataforma de esquerda, encabeçada pelo BE e juntando personalidades independentes como por exemplo Manuel Alegre, vai realizar um comício no Teatro da trindade tendo por mote o neo-liberalismo, a crise de governção e da democracia e os problemas sociais da população.
No texto que serve de base à iniciativa lê-se “A corrupção e a promiscuidade entre diferentes poderes criaram no país um clima de suspeição que mina a confiança no Estado democrático. Numa democracia moderna, os direitos políticos são inseparáveis dos direitos sociais. Se estes recuam, a democracia fica diminuída. O grande défice português é o défice social, um défice de confiança e de esperança”

E assim, enquanto o BE, como diria Giap, anda a tratar da questão da terra, nós, os identitários, andamos para aqui a discutir os indo-arianos…

Comentar por Pippo

é a economia especulativa a sobrepor-se à economia produtiva.

Comentar por RGMateus

Bfsemana, abraço.

Comentar por pintoribeiro

Concordo coma conclusão do Pippo, é significativo o número de comentários sobre este texto de intervenção social, e as resmas de comentários sobre linaneses, israelitas, curdos, religiões e outros que tal.

Comentar por RGMateus

Solução só há uma… Abandonar tudo e regressar à terra, ao trabalho árduo e duro! Aquele que molda o homem no carácter e na coragem mental… Mas ser-se acima de tudo coerente, acreditar e fazer a alternativa, não apenas “propagandear” essa mesma alternativa de recusa ao urbanismo como fazem alguns “Pagãos” e depois não levantam o rabo gordo da cadeira! A verdadeira crise está aí, não é uma fase, foi o destino que o homem moderno ditou a si mesmo! Maldito “Ouro Negro”(????)…

Abraços e saudações a todos

Comentar por Henrique

Pois é, amigo RG Mateus, mas para mim o cerne da questão não é a economia, ainda que esta seja bastante importante, tudo gira em redor do poder político, das influências culturais na sociedade (religião, arte, meios de comunicação), e, finalmente, na problemática etno-racial.

Foi precisamente por dar-se primazia à economia(capitalista) que se chegou à situação em que estamos hoje.

É a política ( quem detem o poder) que deve dirigir a economia, e não o contrário.

Saudações Identitárias

Miazuria Miguel Angelo Jardim

Comentar por Miazuria

Ah! E já me esquecia, se não gostas de discutir religião, libaneses, judeus e curdos, existe uma solução: não leias os comentários.

É muito simples.

Saudações Identitárias

Comentar por Miazuria

Pois é Miguel, não entendo este tipo de comentários, porque a constatação do Rolando é absolutamente correcta, ou seja, não se trata de deixar de ler os comentários, mas sim de constatar que se perde um tempo infinito com mesquinhices desprovidas de sentido, próprias de ratos de biblioteca (e atenção, eu sou fanático da leitura!), absolutamente alheados da realidade circundante, isto é, para os reais problemas que afligem os nossos, ou acaso alguém pode acreditar que conversas sobre origens fenícias dos portugueses, libaneses, paganismo vs cristianismo, reveste-se de algum interesse para a nossa população???

Portanto, não se trata de deixar de ler comentários, mas sim de ter presente uma hierarquia de prioridades, de apresentar um discurso sério, não-carnavalesco ou digno de eruditos do antanho. Se o discurso do proletariado, burguesia, ou até mesmo sionismo se tornou estranho e abstracto para as camadas populares, imagine-se o que é falar-lhes de fenícios, de judeus ou curdos, de paganismo e cristianismo, assuntos que não lhes dizem rigorasamente nada e para os quais se estão bem a lixar, mas não, nós continuamos presos a estes assuntos inócuos, e pior ainda, zangamo-nos uns com os outros porque não sabemos aceitar opiniões dissonantes, criando-se esteriotipos e lançando anátemas.

Enfim, se o tempo cada vez mais me é curto, também não deixa de ser verdade que também pouca éa minha vontade de alimentar ou fazer parte deste carnaval anacrónico.

Um abraço e sempre com elevada consideração.

Comentar por arqueofuturista

Em parte, é verdade, o que escreves,caro amigo arqueofuturista, mas emerge a pergunta, quem é que inicia as hostilidades atacando, por tudo e por nada o cristianismo, logo os cristãos?
Creio que ainda é a religião maioritária dos portugueses, o que do ponto de vista político sociológico e político é relevante para qualquer praxis política consequente. Esta é a minha opinião.

E, sinceramente, tenho sempre suspeitas desse anti-intelectualismo primário, trazem-me más memórias e quem não gosta de ler, que não leia…Mas deixem os outros em paz, a ler e a discutir, que eu saiba, e ainda bem, vivo numa sociedade aberta e plural.

Não se pode é sugerir que se abra o Júlio de Matos, é uma questão de respeito e bom senso. Isto foi escrito, preto no branco.

Sabemos, eu pelo menos sei , quem enviava para hospitais psiquiátricos os que não entravam no coro dos “amens”.

Não lanço anátemas, nem persigo opiniões dissonantes, aliás toda a minha vida lutei para que TODOS pudessem livremente emitir opiniões, desde que não entrassem em vias que contrariassem a LEI e as normas de convivência em sociedade.
Mas tenho também o DIREITO de expressar o que penso, sobretudo quando se ofende e vilipendia convicções e ideias que me são caras.
Mas também é difícil eu zangar-me com alguém porque pensa de outra forma, as minhas zangas, as autênticas, prendem-se sempre com outras razões, que não estas.

Abraço e saudações identitárias.

Miazuria Miguel Angelo Jardim

Comentar por Miazuria

Obrigado, Arqueo, pois era precisamente aí que eu queria chegar.
Não é inútil a discussão sobre as etnias, sobre a cultura (Völkskultur e Altekultur) ou sobre os restantes temas da identidade nacional. Isso é uma parte muito importante do nosso combate.
Mas não pode ser só isto. Se nos cingirmos ao combate identitário não passaremos de um grupúsculo “nazi-fascista-racista-xenófobo”, como os grupos bem pensantes main stream nos gostam de ver.
O que eu quero frisar é que para lograrmos alcançar o nosso objectivo temos em primeiro lugar de lutar pela “terra”, ou seja, temos de dr prioridade e resolver as questões sociais ligadas à política e à economia. São estas as questões prementes que preocupam a nossa população, não as questões da identidade. Estas serão abordadas, isso sim, EM CONJUNTO com as questões sociais, mas NÃO PODEM ser o mote único da nossa acção.
Neste campo o comentário do Miguel aparenta ser um tanto ou quanto deslocado. Mas lendo-o melhor vislumbramos caminhos a seguir:

1 – criticar o poder e o sistema político-económico
2 – actuar socail e culturalmente (muito importante, é o Win hearts ‘n’ minds)
3 – expôr construtiva e esclarecidamente (abordagem “soft”) a problemática étnica em Portugal

Pensem nisso

Comentar por Pippo

Boa contribuição, caro Pippo

Comentar por Miazuria




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