Quando se escreve sobre o que se desconhece…
Outubro 12, 2007, 9:33 pm
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Um tal F. Santos assina na publicação electrónica Alameda Digital um texto intitulado « A trági-comédia nacionalista », no qual o autor estabelece um paralelismo entre os identitários e uma eventual corrente que o mesmo define como nacional-comunista, ou vermelho-verde, e parece, ainda segundo este, ter defensores que lhe dão forma em Portugal.

Não conheço F. Santos, mas pelo que leio do seu escrito, e por via de um exercício de cogitação, afigura-se-me um personagem que já passou a casa dos trinta, padecendo de ligeira calvice, envergando uma engomada camisinha com os botões das mangas apertados, mesmo nos dias de mais tórrido calor, e que escapa à sua misantropia acentuada através da leitura compulsiva dos discursos de Oliveira Salazar ou nos bulhentos panfletos de António Sardinha.

Ora se a leitura é uma prática saudável e recomendável, também não deixa de ser verídico que, como em tudo, ler em demasia acaba invariavelmente por tolher o normal desenrolar do raciocínio, e no caso dos cérebros, digamos, mais frágeis provoca frequentemente a atarantação, sendo o sintoma mais perceptível a desarrumação de ideias e uma constante tendência para a menestra nos considerandos que se procura emanar.

Mais grave, ou no minímo, garantia da ausência de  seriedade, contudo, resulta a tentativa de colocar em prática a elaboração do perfil ideológico de algo ou de alguém que manifestamente não se conhece, mesmo que previamente, não vá o diabo tecê-las, se advirta não haver a pretensão em « estudar a fundo » aquilo que se aborda.

Escreve F. Santos, altaneiro na sua sapiência, que no chamado meio nacionalista existem diversas e distintas tendências que padecem de uma « auto-fágica » atomização, para a qual os identitários e os tais nacional-comunistas vêm, ainda que tardiamente, contribuir. Levanta-se pois a questão; acaso F. Santos redige tal artigo desde fora do supramencionado meio nacionalista? Não cremos que assim seja, a não ser que se dê a conhecer da parte de F. Santos uma tomada de posição pública, esclarecendo que nada tem ou teve que o ligue, mesmo que superficialmente, ao dito meio. Se, inversamente, F. Santos faz concludente e efectivamente parte do meio nacionalista, somos impelidos a rematar que F. Santos contribui indelevelmente para a mencionada atomização, na exacta medida em que, por certo, se revê e está adstrito a alguma tendência nacionalista que não os identitários e até aos prováveis nacional-comunistas.

Mais adiante F. Santos alude que os identitários portugueses são tributários da influência dos seus congéneres em França, « um país com várias identidades regionais muito variadas », com isto querendo insinuar que os portugueses importaram um modelo ideológico de todo aplicável no território nacional, não vão este incómodos identitários fazer despertar o papão do tão odiado regionalismo. Acresce, todavia, questionar F. Santos se nos pode conceder a graça de nos elucidar que nacionalismo, ao longo da história, não sofreu influências de outros nacionalismos, que nacionalistas não se inspiraram noutros nacionalistas. Avivemos a memória a F. Santos recordando que o Professor Salazar, além de ter como mestre doutrinário o francês Charles Maurras, também possuia na sua secretária uma fotografia do italiano Benito Mussolini. E por que não também citar que os Integralistas Lusitanos beberam directamente das lições e exemplos da Action Française…

(…) « tendência balcanizante » e « O seu ideal seria uma Europa de pequenos estados », assim traça o politólogo F. Santos o ideal identitário, reduzido a uma centelha pronta a despoletar o barril de pólvora que é o temível etnicismo regionalista e, consequentemente, fazer em pedaços o “velho continente” e todos os seus estados-nações paridos da famigerada oitecentista hidra da revolução. Nada mais distante da realidade e só por expressa insipiência ou ignomínia reles se pode veicular tamanha ideação. Preferimos pensar que se trata do primeiro caso.

Continuemos na nossa dissecação das palavras redigidas e aos identitários dirigidas por F. Santos, pois este deixou o “melhor” para fim, qual cereja em cima do bolo, ainda que de um bolo fora de prazo. Já lá vamos. Atentemos ainda na vã tentativa de F. Santos em colar os identitários ao estado de Israel, sugerindo que este é o « modelo a seguir » dos primeiros. Embrenhado no seu maniqueísmo F. Santos no escorrega a todo o campo na esparrela dos detractores dos identitários, que acusam estes de serem pró-sionistas apenas e somente porque os identitários não contemplam na sua agenda a denúncia permanente, entenda-se, paranóica e sobejamente gasta, do nacionalismo judaico, comummente designado por sionismo, denúncia, diga-se igualmente que serve para alguns escamotearem um irracional e frustrado ódio extensível a todos os judeus.

Outra frase que não podemos deixar de aqui sublinhar, sendo talvez aquela que melhor expõe o ideário de que F. Santos é apologista, é a seguinte; « “invasão” (se quisermos usar um termo muito usado pelos identitários para descrever a imigração ». A patente indignação do autor desta frase constitui indubitavelmente todo um programa por si só, já que revela bem como F. Santos encara a imigração. Quiçá estejamos perante um aspirante a Alto Comissário para a Imigração e Diálogo Intercultural…

Por fim, conforme prometido, temos a tão almejada cereja, e à parte os considerandos entre um pretenso enfrentamento dos identitários com vermelho-verdes, os quais carecem de real fundamento por inexactidão, no sentido em que os identitários não reconhecem a existência formal ou material de tão coloridos inimigos, eis que F. Santos se deslumbra na sua tarefa de desluzimento dos identitários sem dar conta (outra coisa não seria de esperar!) do insanável paradoxo em que submerge ao asnear que « Estes nacionalistas, sempre prontos a abraçar modelos não-nacionais ». Desprovido de efectiva reflexão como foi apanágio ao longo de todo o arrazoado, F. Santos cai no desconchavo de acusar os identitários se serem nacionalistas que abraçaram um modelo não-nacional. Temos doutrina.
F. Santos determina que se pode ser nacionalista, isto é, de acordo com qualquer dicionário de língua portuguesa, aquele que concede preferência exclusiva por tudo o que é nacional, e concomitantemente defender modelos não-nacionais! Bom, estamos, por certo, perante alguém que conhece ferros de madeira.

F. Santos descreveu o seu texto como uma tragi-comédia, no entanto, e em analogia teatral, uma vez passada revista ao mesmo, concluimos que estamos perante uma peça digna de teatro de revista, não tanto pela comicidade de tal estilo, mas antes pela absoluta caducidade do mesmo e por representar um Portugal mesquinho e maledicente, felizmente cada vez mais restrito a um certo tipo de gente. Enfim, aquilo que de pior existe no nosso país.