A ecologia como superação da fractura direita-esquerda (IV e última parte)
Agosto 9, 2007, 8:38 pm
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Publicamos a parte final do artigo de Miguel Jardim sobre a ecologia e o seu papel decisivo na dicotomia existente entre a direita e a esquerda. Para melhor compreensão do presente texto aconselhamos a releitura das primeira, segunda e terceira partes.

Todo o espectro político confronta-se com os desafios impostos pela globalização, a que eu chamo de “globanalização”, e pelo mundialismo, identificando-se com propostas viciadas pelo erros do passado, não revelando soluções perante as exigências e interrogações do presente, entre estas salienta-se a questão ecológica.

Nos artigos precedentes foi patente a oportunista manipulação da ecologia por parte da esquerda convertida ao capitalismo global e mundialista, definido, nas palavras de J.Peyrelevade, como capitalismo total. Em simultâneo essa mesma esquerda imobilizou-se numa retórica aparentemente alternativa, caracterizada, como último recurso, pela apologia da multiculturalidade, na verdade multirracialidade, e pela árida invocação à solidariedade e justiça social. O cúmulo é que hoje se sabe que as disparidades sociais são maiores e que o “socialismo” como referência ideológica não passa de verbo-de-encher.

A direita, órfã de novidades no plano das ideias, busca com o mesmo linguarejar político e recorrendo à mesma simbólica de sedução, bem similar à da esquerda, com os mesmos chavões apelativos e com o mesmo cinismo.

A verdade é que o ponto de encontro localiza-se na sacralização do mercado, esquecido o social pelo caminho, na realidade de uma suposta “democracia”, expressão do jogo partidário, submetida às influências dos poderes financeiros e mediáticos. O mesmo desprezo pelas Identidades dos Povos, a mesma redução dos seres humanos à mera função de consumidores e objectos de consumo na pura lógica de mercantilização das vivências; o triunfo do “homus economicus” alienado da sua comunidade identitária!

O movimento ecologista, e refiro-me à ecologia política, não se libertou, também ele, deste engodo. A esmagadora maioria dos “verdes” são partidos esquerdistas, na prática e nos conteúdos. São defensores de sociedades multirraciais, negando a biodiversidade, revelam-se adeptos do mais abjecto mundialismo, disfarçam as suas reais intenções com alusões à defesa da natureza: é um puro fenómeno de travestismo político.

O mito do progresso infinito estimula e lidera as motivações económicas, não importando a posição de esquerda ou de direita, a ilusão de que a ciência e a técnica “per se” podem resolver todos os problemas, tudo isto concorre para a irresponsabilidade e devaneio na gestão e conservação dos recursos naturais. Nos fundamentos desta crença está uma filosofia de cunho materialista, uma concepção da vida com registo no culto do crescimento sem regras e na competição sem ética e sem preocupação social.
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