O burguês
Maio 20, 2007, 9:43 pm
Filed under: Em foco

Hermann Hesse in “O Lobo da Estepe

O “burguês”, como um estado sempre presente da vida humana, não é outra coisa senão a tentativa de uma transigência, a tentativa de um equilibrado meio-termo entre os inumeráveis extremos e pares de opostos da conduta humana. Tomemos, por exemplo, qualquer dessas dualidades, como o santo e o libertino, e a nossa comparação se esclarecerá em seguida. O homem tem a possibilidade de entregar-se por completo ao espiritual, à tentativa de aproximar-se de Deus, ao ideal de santidade. Também tem, por outro lado, a possibilidade de entregar-se inteiramente à vida dos instintos, aos anseios da carne, e dirigir seus esforços no sentido de satisfazer os seus prazeres momentâneos. Um dos caminhos conduz à santidade, ao martírio do espírito, à entrega a Deus. O outro caminho conduz à libertinagem, ao martírio da carne, à entrega, à corrupção. O burguês tentará caminhar entre ambos, no meio do caminho. Nunca se entregará nem se abandonará à embriaguez ou ao ascetismo; nunca será mártir nem consentirá a sua destruição, mas, ao contrário, o seu ideal não é a entrega, mas a conservação de seu eu, o seu esforço não significa nem santidade nem libertinagem, o absoluto é lhe insuportável, quer certamente servir a Deus, mas também entregar-se ao êxtase, quer ser virtuoso, mas quer igualmente passar bem e viver comodamente sobre a terra.

Em resumo, tenta plantar-se no meio dos dois extremos, numa zona temperada e vantajosa, sem grandes tempestades ou borrascas, e o consegue ainda que à custa daquela intensidade de vida e de sentimentos que uma existência extremada e sem reservas permite. Viver intensamente só se consegue à custa do eu. Mas o burguês não aprecia nada tanto quanto o seu eu (um eu na verdade rudimentarmente desenvolvido). À custa da intensidade consegue, pois, a subsistência e a segurança; em lugar da posse de Deus cultiva a tranquilidade da consciência; em lugar dos ardores mortais, uma temperatura agradável. O burguês é, pois, segundo a sua natureza, uma criatura de impulsos vitais muito débeis e angustiosos, temerosa de qualquer entrega de si mesma, fácil de governar. Por isso colocou no lugar do poder a maioria, no lugar da autoridade a lei, no lugar da responsabilidade as eleições.

É compreensível que esta débil e angustiada criatura, embora existindo em número tão grande, não consiga manter-se, que, de acordo com as suas particularidades, não possa representar outro papel no mundo senão o de rebanho, de cordeiro entre lobos erradios. Contudo, vemos que, em tempos de governos fortes, os burgueses se vêem oprimidos contra a parede, mas nunca sucumbem; na verdade às vezes parecem mesmo dominar o mundo. Como será possível? Nem o numeroso rebanho, nem a virtude, nem o senso comum, nem a organização serão suficientes para salvá-lo da destruição. Não há remédio no mundo que possa sustentar uma intensidade tão débil na sua origem. E, todavia, a burguesia vive, é forte e próspera. Porque? 


2 comentários so far
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Bom, então acabaste o texto quando o tipo ia explicar por que prospera a burguesia?

Comentar por Rodrigo

Precisamente, quem desejar conhecer a explicação de Hesse para a questão que ficou pendente tem boas alternativas; ou faz uma auto-análise, ou procura investigar, ou simplesmente adquire a obra.

Comentar por arqueofuturista




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