A Causa dos povos?
Maio 14, 2007, 4:21 pm
Filed under: Fala Guillaume Faye

Guillaume Faye, revista “Terre et Peuple” nº18

A «causa dos povos» [do GRECE] é um slogan ambíguo. Foi inicialmente concebido num espírito politeísta para defender a heterogeneidade etnocultural mas desde então tem sido reclamado por ideologias igualitaristas e defensoras dos direitos humanos que enquanto exaltam uma ordem mundial utópica tentam culpabilizar os europeus por terem vitimado o terceiro mundo.  

Falhanço de uma estratégia 

Quando os identitários [do estilo do GRECE] tomaram a defesa da «causa dos povos» no início da década de 80, fizeram-no em nome do etnopluralismo. Esta causa, contudo, era pouco mais que uma artimanha retórica para justificar o direito dos povos europeus a preservarem a sua identidade num sistema mundial que pretendia transformar toda a gente em “americanos”. Ao resistir às forças de descaracterização cultural era esperado que os europeus, tal como os cidadãos do terceiro mundo, mantivessem o direito à sua diferença, fazendo-o sem terem de sofrer a acusação de racismo. Como tal o slogan assumia que toda a gente, inclusive os brancos, possuíam esse direito. No entanto assim que este argumento foi utilizado o cosmopolita Taguieff [um académico sobre a extrema-direita], começou a referir-se a ele como «racismo diferencialista» [no sentido em que a diferença cultural e não a cor da pele se tornava o critério de exclusão].

Em retrospectiva, a estratégia da «nova direita» parece uma completa invenção, pois a «causa dos povos», o «direito à diferença», e o etnopluralismo foram todos virados contra os identitários. Mais, é irrelevante para a presente condição da Europa, ameaçada que está por uma invasão massiva de não europeus e por um Islão conquistador ajudados pelas nossas elites etnomasoquistas.

Reclamado pela ideologia dominante, voltado contra os identitários e tangencial aos problemas correntes, a estratégia etnopluralista do GRECE é um desastre metapolítico. Também mantém algo do antigo preconceito marxista, esquerdista-cristão acerca da “exploração” europeia do terceiro mundo. Como Bernard Lugan [africanista francês] mostra em relação à África negra, este preconceito é baseado em pouco mais que ignorância económica. A «causa dos povos» é no entanto associada com um altruísmo de tipo cristão que culpabiliza a nossa civilização, acusando-a de ter destruído todas as outras e fá-lo no exacto momento em que estes estão ocupados a preparar a destruição da nossa própria civilização.

O «direito à diferença»… qual direito? Não tivemos já demasiadas choramingueiras Kantianas [acerca dos direitos abstractos]. Existe apenas uma capacidade para ser diferente. No processo selectivo da História e da vida, toda a gente tem de sobreviver por si. Não existem protectores benevolentes. Este direito de sobrevivência, ainda mais, parece estar reservado a toda a gente menos aos europeus que, em nome do multiculturalismo ou de qualquer outra moda cosmopolita estão condenados a esquecerem a sua própria identidade biológica e cultural.

Este slogan tem outro perigo: ameaça degenerar numa doutrina, um comunitarismo étnico, sancionando a existência de enclaves não europeus nas nossas próprias terras, já que prevê na Europa comunidades de estrangeiros, particularmente muçulmanas que por óbvias razões demográficas terão um papel cada vez mais decisivo nas nossas vidas. Esta afronta à nossa identidade é acompanhada por argumentos sofistas que ridicularizam a “fantasia” de uma possível reconquista branca. Neste espírito é-nos dito que teremos de conviver com uma Europa multiracial, mas eu recuso viver assim, nem estou preparado para me retrair perante um alegado determinismo histórico cujo objectivo é transformar a Europa numa colónia do terceiro mundo.   

A vida é uma luta perpétua

A «causa dos povos» faz agora parte dos argumentos dos direitos humanos. Por contraste a tese neo darwinista de conflito e competição, que assume que apenas os mais fortes sobrevivem parece aos olhos dos nossos comunitários de coração mole um vestígio de barbárie, mesmo se esse vestígio coincide com as leis orgânicas da vida. Esta tese ao reconhecer as forças de selecção e competição é por ela capaz de garantir a diversidade das diferentes formas de vida.

A «causa dos povos» é colectivista, homogeneizadora e igualitarista, enquanto o «combate dos povos» é subjectivista e heterogéneo de acordo com as propriedades intrínsecas da vida. Neste sentido apenas o nacionalismo e o choque das “vontades de poder” são capazes de manter os princípios de vida afirmativos da subjectividade. Dada a sua assumpção igualitária de que todos os povos têm o direito à vida, a «causa dos povos» prefere ignorar óbvias realidades históricas por um objectivismo que procura transformar os povos do mundo em objectos apropriados para uma exposição num museu. Assim implica a equivalência de todos os povos e civilizações.

Este tipo de igualitarismo toma duas formas básicas: uma é expressa num conceito homogéneo mas miscigenado do que significa ser humano (a raça humana), a outra procura preservar os povos e as culturas da mesma forma que um curador faria. Ambas as formas se recusam a aceitar que os povos e as civilizações são qualitativamente diferentes. Assim justificam a ideia absurda que temos de salvar povos e civilizações em perigo (pelo menos se forem do terceiro mundo) da mesma forma que salvaríamos uma foca em perigo. O processo turbulento de selecção da história não tem, no entanto, espaço para a preservação, apenas para subjectividades competitivas. No seu tribunal as doutrinas «salvacionistas» são simplesmente inaceitáveis.

A «causa dos povos» também assume uma solidariedade inerente entre a Europa e os povos do terceiro mundo. Mais uma vez isto não é mais que uma duvidosa construção ideológica que os «grecistas» inventaram no inicio dos anos 80 para evitarem a acusação de racismo. Eu não disponho aqui do espaço para desmistificar a teoria da «exploração do terceiro mundo», contudo explicar as dificuldades destes povos em termos puramente neo-marxistas como se fosse devido às maquinações do FMI, da Comissão Trilateral, do grupo Bilderberg ou qualquer outro belzebu, dificilmente merece resposta.

De acordo com os meios de comunicação e os académicos a «cultura do outro» está agora em estado de sítio em França, ainda que a «afromania» estenda a sua fúria. Eu, por outro lado, penso que não é de todo exagerado afirmar que a descaracterização da cultura europeia por influência norte-americana deixou de ser uma ameaça já que foi largamente ultrapassada por outras ameaças mais perigosas.

A Europa primeiro!

Eu respeito o destino dos, por vezes aflitos, esquimós, tibetanos, povos da amazónia, pigmeus, dos Kanaks, dos aborígenes, dos berberes, dos povos do Sahara, dos índios, dos nubianos, dos inevitáveis palestinianos e dos homenzinhos verdes de Marte. Mas não esperem lágrimas de crocodilo da minha parte. Quando a inundação ameaça a minha própria casa eu posso apenas pensar nos meus problemas e não tenho tempo para ajudar ou chorar por outros; além disso quando é que estes outros alguma vez se preocuparam connosco? Em qualquer caso os perigos que supostamente os ameaçam estão largamente exagerados, especialmente em vista do seu vigor demográfico, o qual, diga-se, é devido à medicina e ajuda ocidental – as mesmas forças ocidentais que alegadamente os exploraram também parecem tê-los tornado prósperos (ou pelo menos a reproduzirem-se em números sem precedente).

Se os nossos comunitários querem realmente defender a «causa dos povos», podem começar pelos europeus, que estão agora a ser assaltados pelas forças demográficas, migratórias e culturais do sobrepovoado terceiro mundo. Em face destas ameaças, não nos encontrarão a choramingar (como um padre) ou a fugir (como um intelectual) para a causa dos «outros». Nós próprios, sozinhos, seremos suficientes. 


15 comentários so far
Deixe um comentário

«No entanto assim que este argumento foi utilizado o cosmopolita Taguieff [um académico sobre a extrema-direita]»

estudioso da extrema-direita.

Comentar por Rodrigo

Explico-me melhor, essa tradução foi feita “de corrida” para o fórum nacional. Acontece…

Comentar por Rodrigo

Realmente a pressa nunca foi amiga da perfeição!
Um preciosismo que não retira sentido à frase.

Comentar por arqueofuturista

Guillaume Faye toca no essencial, como sempre….

Um abraco

Comentar por Miazuria

O meu Identitarismo radica precisamente na defesa da Causa dos Povos. De TODOS os povos contra a globalização marxista nas suas duas(?) facetas, em nome do direito (que deveria ser inalienável) de cada povo à sua liberdade e modo de vida. Obviamente que a ideia é cada um lutar pelo seu povo contra a Globalização e não esquecermo-nos de nós para ir lutar pelos “coitadinhos”: quando o bairro está todo a arder, salvo primeiro a minha casa. Mas dizer que a causa dos povos não é uma luta meritória só porque passou a servir como arma de arremesso contra os nossos (Europeus) povos é o mesmo que dizer que o sonho Europeu está errado só porque está actualmente nas mãos dos pulhíticos padecentes de bruxelose. A aplicação da palavra “estratégia” também me parece de uma infelicidade extrema: para muitos de nós, nunca foi estratégia nenhuma, foi, isso sim, a razão fundamental que motivou a nossa militância pela única alternativa válida a um futuro orwelliano de globalização escravizadora dos povos à vontade de meia-dúzia.

Comentar por Paulo

Caro Paulo, o que Faye aqui denuncia é uma estratégia e não existe outra forma para descrever essa luta. É natural discordar, como também é legítimo concordar e apoiar, que é na prática o que faço. A estratégia da luta dos povos foi adoptada pelo GRECE e demais sectores NR nos finais dos anos 60 e ínico de 70, sendo que se procurava legitimar a luta nacionalista na Europa com base na legitimação das lutas do povos do terceiro mundo, afastando assim não só o fantasma do passado recente europeu ligado ao nacionalismo de matiz imperialista e por outra parte baralhar o tabuleiro político através do resgate de um tema que era caro à esquerda. Não foi de estranhar ver nacionalistas apoiarem Che Guevara, a autodetermniação dos povos, incluindo nas províncias portuguesas…

Ora, numa época de emergência (Ernstfall), Faye denuncia que é um disparate persistir numa estratégia que nada de positivo trouxe ou pode trazer para a luta pelo Renascimento europeu (o interesse pela causa palestiniana, ainda que em muitos casos movido por outra razão, é um exemplo de uma estratégia redondamente falhada), sob o risco da cegueira dogmática nos levar a querer apagar o fogo na casa do vizinho e desse modo olvidarmos o fogo que arde na nossa própria habitação. Faye reconhece a legitimidade dos povos à autodeterminação, ele assim o refere, mas não faz disso a sua bandeira. Como etnocentrista, Faye centra a sua atenção na Europa e nos países onde os europeus são a maioria da população, aquilo a que ele chama Setentrião. Portanto, dispender energias, desviar a atenção da nossa caótica situação actual, é colocarmo-nos objectivamente no sentido oposto aos interesses dos europeus.

Comentar por arqueofuturista

Concordo na generalidade, mas pretendi destacar que para muitos nacionalistas a Causa dos Povos nunca foi um disfarce mas sim uma profissão de fé. Obviamente, condeno aqueles que se deixam cegar pela mesma e acabam por ir apagar o fogo ao quintal do vizinho, mas não acredito que entre nacionalistas haja esse perigo. Alguns pensámos em voluntariar-nos para combater por Espanha contra Marrocos caso a situação do ilhéu de Perejil tivesse acabado mal, mas não estou a ver ninguém a ir combater pelos zulus caso estes entrassem em guerra com os xhosas. Em todo o caso, há a questão da Palestina, como dizes, e é verdade que muitos se deixaram cegar nesse caso concreto. Mas aí o problema parece-me ter sido o anti-sionismo primário. Eu proponho que não se abandone a Causa dos Povos, mas sem o tal dispêndio de energias. Acredito que isso é perfeitamente possível: cada povo que lute pela sua libertação. Por último, onde no meu comentário anterior disse “globalização amrxista” quis dizer “globalização marxista e capitalista”.
Um abraço,
Paulo

Comentar por Paulo

Caro Paulo (presumo pela escrita que sejas o meu amigo PR), entendo perfeitamente isso que escreves, também eu, ou a minha geração, no seu primordial contacto com o nacionalismo encarou a Causa dos Povos como algo sincero, e como bem referes uma autêntica profissão de fé. Estou firmemente crente, porém, que a mesma obedeceu a uma estratégia e que essa estratégia hodiernamente já não corresponde aos nossos objectivos por ultrapassada que está. Isto, contudo, não quer dizer que não a respeitemos, que não respeitemos os povos que lutam pela sua autodeterminação e pela preservação das suas especificidades identitárias, como por exemplo os Karen na Birmânia, os Kalash no Paquistão, os Boers na Républica Sul-Africana, etc.
Repara que Faye denuncia a estratégia, mas respeita o espírito que animou essa estratégia, reconhecendo a legitimidade de todos os povos nas suas lutas identitárias, apenas considera, enquanto etnocentrista europeu, ser uma perca de tempo centrar atenções nessa estratégia, a qual felizmente é apenas utilizada por alguns sectores ultraminoritários dos NR.

Recebe um abraço forte.

Comentar por arqueofuturista

“Alguns pensamos em voluntariar-nos para combater por Espanha”
Por causa de um ilhéu? Que raio de nacionalistas são estes?
Olhem para a merda em que estamos enterrados e combatam cá, não pelas armas mas convertendo Portugueses à causa!

Comentar por Camões

Camões, não tendo sido eu a escrever essa afirmação, ainda assim há que entender duas coisas:

1- Os inimigos da Europa são praticamente os mesmos aqui, em Lisboa, como em Moscovo. O combate não é apenas nacional, é transeuropeu. Logo, defender os interesses europeus em Lisboa ou em Moscovo, ou mesmo um ilhéu espanhol, são igulamente importantes.

2- Mais do que nacionalista, considero-me identitário, isto é, partindo da compreensão das limitações do nacionalismo face às questões que se impõe no século XXI, o combate torna-se, como supra escrevi, transeuropeu. Defendo pois um pós-nacionalismo que encontra a sua expressão no identitarismo.

Comentar por arqueofuturista

Ás vezes tenho ressentimentos com Espanha e acho que não vale a pena arriscar a minha vida por “Castelhanicisses”:
Olha, por exemplo:
Galiza
Olivença
Alcantara
etc.

Comentar por Camões

Há que perceber que o nacionalismo estreito, o nacionalimo de umbigo, é o pior inimigo dos povos. O ressentimento face a espanha, ou qualquer espécie de revachismo, é ,além de pouco saudável, pouco prático e até suicidário. Não serve senão para entreter, desviando a atenção daquilo que realmente importa, e enfraquecer os povos de ambos os lados da fronteira.

Citou alguns casos, e de todos eles apenas Olivença poderia suscitar alguma polémica. Contudo, e esta é somente a minha opinião pessoal, num momento em que a Europa no seu conjunto enfrenta a maior ameaça da sua história, visto caminhar a passos largos para a extinção demográfica, não vejoque interesse tem debater a questão de uma parcela de território que não nos traria riqueza nem bem-estar,além da sua população não desejar o retorno à soberania portuguesa!

Comentar por arqueofuturista

Isso não me cheira a nacionalisma, cheira-me a europeísmo se bem que tem a sua lógica.
Outra coisa engraçada é que nunca ouvi nenhuma “solução final” para as “minorias”(?) étnicas que estão na Europa, o que se pretende fazer.
Por muito nacionalista e europeista que seja não apoio a morte ou deportação de todo e qualquer alienígena.

Comentar por Camões

A Causa Identitária é como o nome indica identitária e não apenas nacionalista. A CI está para além do nacionalismo, é pós-nacionalista, mas assumidamente europeísta sem complexos.

Já quanto a uma pretensa “solução final”, é óbvio que não encontrará na página da CI nem neste blog qualquer referência a tal termo, visto que não existe qualquer solução final para o quer que seja.

A questão da migração não requer uma solução final, mas soluções graduais e enérgicas. O repatriamento de grande parte dos imigrantes é a meu ver desejável, mas sempre que desde uma plataforma condigna e respeitadora dos imigrantes, muitos deles também vítimas do engodo que é o El Dorado europeu. Em suma, dever-se-á pôr em prática um processo quase semelhante às descolonizações europeias, e digo quase porque não desejo para os imigrantes o mesmo processo ao qual foram sujeitos os portugueses aquando da “exemplar” descolonização.

Comentar por arqueofuturista

Toda a verdade sobre o Sara Ocidental e a proposta marroquina de autonomia no site oficial do Conselho Real Consultivo para os Assuntos Sarianos (CORCAS), em língua portuguesa:

http://www.corcas.com/Default.aspx?alias=www.corcas.com/pt

O site é actualizado diariamente.

Comentar por sarita




Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s



%d bloggers like this: