A Suástica e as suas variantes no Norte de Portugal, desde a Pré-História até à actualidade
Abril 16, 2007, 8:03 pm
Filed under: Raízes

Trabalho realizado por dois jovens arqueólogos para uma exposição organizada pela Sociedade Martins Sarmento no ano de 1997, e cujo espólio referido neste trabalho faz parte do rico património da mencionada instituição, a qual merece incondicional apoio e não menos merecida visita ao seu museu.

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De todos os símbolos que surgem em vestígios arqueológicos, a suástica é, sem dúvida, o que mais variantes apresenta, sendo, muito provavelmente, aquele cuja sobrevivência se tem mostrado mais persistente. Datando, pelo menos, desde os finais do VI milénio a.C., ainda hoje é utilizado com carácter simbólico-religioso no Oriente, estando também presente na etnografia ocidental, geralmente com valor decorativo, excepto alguns casos em que ainda revela um certo carácter de protecção.

Muitos autores do século passado apresentaram teorias quanto ao significado deste símbolo, havendo as mais diversas interpretações: imagem do deus supremo, símbolo solar, representação do raio/relâmpago, união do sexo masculino e feminino, símbolo do fogo, representação figurada da água, etc.

Com o advento de certas correntes filosofico-políticas que culminaram no nazismo, e a adopção da suástica pelo Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, o interesse por este símbolo diminuiu, ficando praticamente limitado à esfera de influência alemã (salvo raras excepções). Depois da II Guerra Mundial, e em sequência das conotações políticas negativas que a suástica passou a ter, algumas publicações atribuem a denominação de “decorações” a suásticas presentes em vestígios arqueológicos, arredando- as do campo simbólico.

 

A partir dos inícios dos anos 80, principalmente com os trabalhos do arqueólogo inglês Ian Hodder, o interesse pelo simbolismo em arqueologia aumentou e tem vindo a aumentar consideravelmente. Surgiram desde então, e até à actualidade, alguns estudos que retomaram a temática da simbologia da suástica.

A presente exposição, de carácter arqueológico-etnográfico, deixa de parte abordagens político-doutrinárias, orientando-se por uma perspectiva de arqueologia interpretativa, tendo sempre em conta que qualquer interpretação será sempre “provisória, aproximada e parcialmente subjectiva”(1).

Partindo de um levantamento bibliográfico e iconográfico o mais exaustivo possível, concluiu-se que algumas interpretações anteriores se revelaram abusivamente generalizadas e definitivas, atribuindo um único significado a todas as suásticas presentes nos mais variados vestígios e pertencentes a culturas e épocas muito diversas. Notou-se que, até no seio de uma mesma civilização, podem coexistir significados diferentes. Será que, por exemplo, as suásticas presentes em lápides funerárias romanas e as existentes em alguns mosaicos terão o mesmo valor? Pensamos que talvez não. O que é indiscutível é que este símbolo representou algo de muito importante, facto provado pelas suas extraordinárias sobrevivências, só possíveis se a suástica tiver tido “um valor místico tal que tenha penetrado profundamente nas almas das populações às quais ela era apresentada como o resumo, o sinal visível de um dogma, de uma crença”.(2)

Actualmente, na Índia, a suástica simboliza ainda o poder divino, e embora outros significados possam ser atribuídos a este símbolo, consoante as épocas e os lugares, pensamos que inicialmente deve ter representado uma divindade (suprema ou não), tendo esse valor ficado na mente dos povos durante milénios. O próprio cristianismo utiliza-a como símbolo, não faltando exemplos do seu uso, aparecendo juntamente com inscrições funerárias e pinturas místicas (o Bom Pastor, o Diógenes Fossor e o anjo Gabriel) nas catacumbas, em imagens de cristos romanos, na pintura religiosa italiana renascentista, etc. Existe também um curioso mosaico medieval na igreja de Santa Maria Maior, em Vercelli (norte de Itália), onde se vêem duas suásticas tipo “Alto Minho”, que parecem proteger um guerreiro cristão que combate um muçulmano, estando associada a um desses símbolos a palavra DIIO (Deus)…

No norte de Portugal, a suástica está presente em alguns templos cristãos, como, por exemplo, no pórtico da igreja matriz de Barcelos, na capela de S. Torcato (Guimarães), numa pia baptismal do séc. VII proveniente da freguesia de Brito (também Guimarães), e que faz parte do espólio do Museu Alberto Sampaio, na Sé de Braga (no tecto da sala onde os bispos se paramentam), numa janela da igreja de S. Francisco do Porto, etc. Curiosamente, a suástica parece persistir em ligação com o divino…

Como é evidente, esta mostra sobre a suástica não reúne todos os exemplares do norte do país. Existem, por exemplo, vários casos de trísceles (variante com três braços curvos) e de suásticas flamejantes em lápides funerárias romanas, dispersos por alguns museus arqueológicos da área estudada. Contudo, este tipo de variantes do símbolo está bem representado no espólio do Museu Martins Sarmento, tornando-se, assim, desnecessário solicitar outras peças aos citados museus, salvo algumas excepções interessantes.

A investigação que temos vindo a realizar, não tem deixado de nos surpreender, pois trata-se de um símbolo que surge onde menos se espera, desde peças de vestuário, e outros têxteis, ao mobiliário, passando por azulejos, tijoleira e outras formas decorativas e arquitectónicas, etc.

Por último há que referir que com esta mostra pretendemos, acima de tudo, contribuir para o desenvolvimento da Arqueologia Simbólica em Portugal, evitando, também, erudições desnecessárias, visto que o público visado é bastante heterogéneo. 

(1) La Arqueologia en la Era Post-Moderna, Hodder, I., p. 19, 1987.

(2) La Religion des Gaulois, Bertrand, A., p. 163, 1897. 

 


11 comentários so far
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Creo recordar haberla visto más de una vez en alguna Iglesia románica en el fuste de la columna, en el Camino de Santiago. (creo incluso recordar que en Frómista)

Comentar por Pepin

Interessante artigo camarada.
A Calécia realmente teve um passado cultural extremamente rico. Pena que actualmente se fale tão pouco da sua cultura e do seu passado.

Já agora qual era a suástica dos Lusitanos? tinham alguma?

Comentar por Gorp

Ora viva Gorp (ou qualquer outro pseudo que utiliza), é sempre bom ler as suas provocações, ainda que de efeito inócuo. O passado cultural da Calécia está tão olvidado quanto o das outras regiões da antiga Hispânia.

Quanto à suástica dos lusitanos seria com certeza idêntica à utilizada pelos demais povos indo-europeus, dos quais os calaicos faziam parte. Todavia, não deixaria de ser um exercício interessante para o Gorp pesquisar sobre esse tema, pois talvez se apercebesse que se é útil estudar e conhecer o passado remoto do nosso povo português, também é sobremaneira importante compreender que o combate identitário actual está longe de animar aspirações anacrónicas e irrealizáveis como é essa ideia de uma Calécia independente ou incorporada na Galiza.

Comentar por arqueofuturista

“O passado cultural da Calécia está tão olvidado quanto o das outras regiões da antiga Hispânia.
(…) se é útil estudar e conhecer o passado remoto do nosso povo português, também é sobremaneira importante compreender que o combate identitário actual está longe de animar aspirações anacrónicas e irrealizáveis como é essa ideia de uma Calécia independente ou incorporada na Galiza.”
….
Creio que o passado cultural das regiões “da antiga Hispânia” não está igualmente olvidado em todas elas !
O processo autonómico espanhol permitiu um relançamento cultural das nações que se encontravam há séculos “castelhanizadas” e hoje podemos constatar o reaparecimento de linguas que estiveram proibidas (basco, galego, catalão, valenciano, asturo-leonês …) e a expansão de costumes, folclores e tradições que o centralismo cultural castelhano tinha tornado confidencial.
O elevado desenvolvimento económico da autonomias como Catalunha, País Basco ou Galiza, é hoje um dado adquirido !

A opinião de que uma Calécia independente ou incorporada na Galiza são “aspirações anacrónicas e irrealizáveis” é perfeitamente respeitável, assim como a contrária também o é, embora não a comparta, pelo menos no formato tão redutor em que a apresenta.
Com efeito, uma Calécia, no sentido de Região Norte, independente, é um contrasenso que nunca ouvi ou vi defendido por ninguém desta Região. É uma opinião forânea que, mantendo-nos dentro dos nossos habituais limites de moderação, poderiamos classificar de provocatória… se é que alguma vez foi formulada !

Quanto à “incorporação” da Calécia na Galiza é talvez uma visão modernista, uma perspectiva angular desde o Centro Cultural de Belém (para não insistir no Terreiro do Paço), que não representa a característica bravura e altivez do povo nortenho.
Parece-me teóricamente aceitável, num futuro mais ou menos longinquo, o retorno a uma Região compartida por um mesmo povo, uma mesma lingua, uma mesma cultura… A “incorporação”, no sentido de “anexação”, não é seguramente um projecto nortenho !
Gallaecia é um todo étnico e cultural, separado por uma fronteira politico-religiosa, com o a parte norte (Galiza) saindo de um processo de castelhanização, e a parte sul (Região Norte) submetida à séculos a uma colonização política de um governo centralista.

No presente, a Região Norte, se for aceite como tal, continuará a ser parte integrante de Portugal, colaborando e participando num destino, numa História, que tem sido comum há séculos. E estou íntimamente convencido de que assim pensa a maioria dos nortenhos !
Porém, se o Estado portugués mantêm as discriminações politico-económicas, se continua a mega-concentração numa espécie de “capital-estado”, pode iniciar-se um processo de desagregação, latente já em várias Regiões do País (não somente na Região Norte).

Olhar para o lado e assobiar, ou pretender desqualificar o que não agrada (recurso frequente), não me parece procedimento convincente.
Pretender alterar os factos pela teoria não altera em nada a realidade !
.
Cordial Saudação
.
Gallaecia
http://gallaeciaeuropa.blogspot.com
.

Comentar por Antonio_Lugano

Onde se lê :
“… (Região Norte) submetida à séculos…”
deve ler-se :
“… (Região Norte) submetida hà séculos…”
Grato e…desculpas.

Comentar por Antonio_Lugano

Desculpe se o enervei, mas não se tratava de nenhuma provocação mas apenas uma simples pergunta sobre a suástica dos lusitanos. Não percebo porque ficou tão afectado com a minha simples pergunta. Desculpe a minha ignorância mas pouco sei sobre esses pormenores do nosso passado.

Disse então que a suástica dos Lusitanos era igual à dos povos indo-europeus. Mas igual a qual? Ao que sei ha várias suásticas. A Alemanha tem uma, pelo que vejo a Calécia tem outra, os Bascos tem outra com mais um braço. A lusitana é igual a qual? à dos nazis? à basca? à calaica ou quê?

Comentar por Gorp

Estimado António Lugano, ainda que compartilhe das legítimas inquietações da nossa população que habita toda a área extra-Lisboa, e por esta olvidada, persisto na ideia, para mim um facto indesmentível, de que não existem várias nações no território português. Diferenças ao nível da cultura regional ou local não constituem nações por si só. Se a regionalização, actualmente de volta à agenda política, é premente, querer daí retirar conclusões fantasistas com base em estatísticas é no minímo pouco correcto intelectualmente.

No que concerne à minha observação sobre os antigos povos da Hispânia, resultante da afirmação de Gorp concernante à existência de Calaicos e Lusitanos, à qual retorqui que esses vetustos povos são hoje apenas lembranças longíquas que se perdem na memória histórica, acrescento que isso se torna ridículo se nos recordarmos que a Ibéria era habitada por inúmeros povos, como os Vetões, os Turdetanos, os Cónios, entre outros, além dos supra-mencionados, sendo que tal abordagem se resume a uma linguagem carente de pertinência no combate em curso, isto para não dizer desprovida de interesse e objectividade.

Melhores saudações.

Comentar por arqueofuturista

Caro Gorp, não me enervou de modo algum, garanto-lhe que seria necessário esforçar-se bem mais para atingir tal meta e que, muito pelo contrário, me divirto bastante ao ler os seus dislates sobre Calaicos e Lusitanos e demais delírios de quem julga ainda viver na época clássica. Pois, lamento desiludi-lo, mas estamos no século XXI e Calaicos e Lusitanos são já memórias e arquétipos, honráveis por certo, mas não mais do que isso. A não ser que o meu amigo tenha a capacidade de ressuscitar povos antigos…

No que respeita à sua ironia, sinto-me tentado a aconselhá-lo a inscrever-se num qualquer programa de stand up comedy, visto ter veia de comediante.

Como não me paga para lhe dar aulas de história, arqueologia, e mesmo de antropolgia, e dado o meu espírito filantrópico não estar para aí virado, aconselho-o a dedicar-se mais a uma leitura universal (entenda-se mais abrangente), em vez de se refugiar nesse seu mundinho fantasista, qual “Em busca dos Calaicos perdidos”.

Comentar por arqueofuturista

Mas afinal A Lusitânia tinha ou não tinha suásticas? É que independentismos à parte, a questão é pertinente. E se rezam os manuais de história, que os antepassados dos Portugueses, qual é o papel deste famigerado símbolo galaico?

Comentar por breogan88

correcção: … antepassados dos portugueses são os Lusitanos

Comentar por breogan88

Também são os Galaicos. E os Celtici.

Comentar por Caturo




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