Considerações necessárias sobre o nacionalismo basco (euskaldun), 4ª parte
Março 28, 2007, 10:06 pm
Filed under: Em foco, Europa

Até à III Assembleia da organização, realizada em maio de 1964, os líderes iniciais mantém-se na direcção, enquanto que os “Aberri Eguna” (dias da Pátria) reunem cada vez mais simpatizantes dos dois lados da fronteira, sinal da crescente influência dos activistas “abertzales”.

A IV Assembleia é realizada clandestinamente, revelando a predominância da ala ligada aos membros da estrutura interna e da clandestinidade. A Direcção política começa a reflectir uma orientação ideológica diferente da etno-linguística, identificando-se muito mais com as correntes da nova-esquerda europeia (Ernest Mandel), influenciada pelo trotskismo. A palavra de ordem resumia o patriotismo operário contra o nacionalismo burguês. Surgem os primeiros indícios das divisões internas identificadas com claras divergências ideológicas.

 

O ano de 1966 caracterizou-se pelo registo da confrontação entre os “históricos”, Benito del Valle, Imaz Garay e Txillardegui contra a orientação cada vez mais “espanholista” dos dirigentes eleitos na lV Assembleia, pouco preocupados, isto segundo o parecer dos culturalistas/etno-linguistas, com a Identidade e especifidade dos Bascos. A outra oposição provinha de Madariaga e Krutwig, este tinha acabado de publicar dois livros: “La Cuestión Vasca” (A Questão Vasca) e “Nacionalismo-Revolucionário”.

Estas duas correntes acusam a direcção de confundir a agenda política da esquerda espanhola e francesa com a luta de libertação nacional dos bascos. Um artigo do nº2 da revista “Branka”, de certa forma porta-voz da tendência etno-linguística de Benito del Valle e Txillardegui, publicado em Setembro de 1966, intitulado “Frente Nacional Basca” ou “Frente de Classe” diz-nos, sem ambiguidades, que a frente de classe, de inspiração marxista, não é mais do que uma frente anti-basca! E rematavam: nenhum movimento ou grupo que considerasse o combate pela identidade basca como secundário ou esquecesse a dimensão nacional da questão basca poderia entrar na Frente Basca.

Posteriormente, em 1973, na redacção do “Projecto do manifesto Basco” encontrar-se-á, de novo, a expressão culturalista/etnolinguística quando se faz a apologia do socialismo não-marxista, pluralista, federalista, descentralizado e autogestionário por oposição à ortodoxia marxista-leninista.

Após a publicação do número 45 do boletim “Zutik”, as duas facções, a nacional-revolucionária (Krutwig) e a etno-linguística (Txillardegui) rompem com a liderança. A ruptura é consolidada durante os trabalhos da V Assembleia quando esta elege Txabi Echebarreta, representante da ala marxista-leninista, internacionalista e obreirista, derrotando Imaz Garay, membro da tendência culturalista. O resultado é o aparecimento da ETA -Zarra (velha) e da ETA-Berri (nova).

A V Assembleia aprova resoluções de conteúdo ideológico marxista, identificadas com um projecto abertamente comunista. A tendência etno-linguística bem tenta durante os trabalhos federar os diferentes pontos de vista, mas sem sucesso. O marxismo-leninismo na sua ortodoxia pura e dura incompatibiliza-se com o socialismo de cores Bascas dos históricos. Em Abril de 1967 demitem-se José Manuel Agirre, Benito del Valle e Txillardegui, negando estes o carácter marxista-leninista da organização e a sua estratégia de guerrilha. Os anos 60, até meados dos 70 são caracterizados pela crescente repressão do estado Espanhol e por uma certa debilidade da ETA, todavia não impeditiva da repetição de atentados e acções militares. Em simultâneo, permanecem e agudizam-se as feridas abertas pela cisão. Entre a V e a VI Assembleia proliferam os grupos e revistas: Acção Nacionalista, Yagi-Yagi ou Jagi-Jagi, STB, ETA-Berri, ETA-Zarra, Enbata (França), EGI-batasuna, Branka, Anai-Artea (França), Acção Patriótica Basca, Saioak, Beltza, etc. O espelho de uma pluralidade, consequência da história e dos contextos sócio-políticos em que o nacionalismo radical basco operava. Naqueles anos salientou-se pela sua contribuição teórica, Juan José Echade “Auntye”, herdeiro ideológico do grupo Yagi-Yagi que recusa frontalmente a cobertura ideológica marxista, identificando-se com as posturas políticas expressas pelo grupo “Beltza”, sediado na Bélgica. Dos seus escritos, salientam-se: “Notas para una teoria del  nacionalismo revolucionario” e “História del Nacionalismo Vasco”.

A VI Assembleia, convocada em duas sessões, consagra as divisões internas entre as distintas facções, a saber: marxista-leninista, nacional-revolucionária e etno-linguística. Cinco destacados membros, Edar Arregui, Juan José Echade, Lopéz Adán, Madariaga e Krutwig, não reconhecem a legitimidade da V Assembleia, acusando-a de “espanholista”. Para eles, as bases da “Frente Nacional Basca” deveriam incluir e consagrar  a unidade territorial de Euskadi, a independência de Euskadi e estipular o Euskera como única língua nacional. A direcção saída da V Assembleia qualifica Madariaga e os seus companheiros de racistas e burgueses. Echade responde na revista “Kemen”, escrevendo que os trabalhadores espanhóis, na maioria vindos da Andaluzia e Galiza, revelavam um carácter imperialista, pois 90% deles consideravam Euskadi como mais uma região Espanhola.

O boletim “Zutik” e as publicações da época, “Hautsi” e “Branka” são o palco privilegiado dos debates e discussões teóricas, ao mesmo tempo que decorriam os atentados e a correspondente repressão do estado Espanhol, com mortos e feridos de ambos os lados em confronto. 

Continua 


2 comentários so far
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Como el título de un programa radiofónico de la emisora de Polanko: “Falar por falar”……..

Comentar por calle jibraltar español

Creio que o único que aqui “fala por falar”, ou como dizemos em português “fala para o boneco”, é você, já que ninguém dá crédito algum aos seus comentários.

Comentar por arqueofuturista




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