Considerações necessárias sobre o nacionalismo basco (euskaldun), 3ª parte

Em 1963 surgem duas personalidade carismáticas que alteram o rumo ideológico da organização: Federico Krutwig e José Echevarrieta. O primeiro, de origem alemã por parte do pai, e basca pela da mãe, nascido em Guecho (Getxo), escritor multifacetado em euskera, conhecedor profundo da cultura clássica Helénica, marxista heterodoxo, vindo do anarquismo. Introduz o conceito da guerra revolucionária e das técnicas de guerrilha. O segundo, estudante de  Medicina, recém-chegado de Paris, dá a conhecer o pensamento de Mao Tsé Tung (Mao-Zedong), tão em voga naquele tempo. Ambos são importantes para a compreensão das derivas e atribulações ideológicas da ETA.

Na sua obra fundamental intitulada “Vascónia”, Krutwig demarca-se radicalmente do nacionalismo de Sabino Arana, denunciando a xenofobia, afirmando-se pagão e anti-clerical, evocando o Euskera como factor incontornável da unidade nacional. Recorde-se que Krutwig publicou vários estudos sobre o Euskera, defendendo o dialecto Labourdino como padrão unificador dos restantes dialectos.

 

Embora marcado pelo esquerdismo não-ortodoxo, Krutwig imagina um País Basco idílico, harmonioso, sem classes, fraternal, cooperativo,isto antes da chegada dos “invasores” espanhóis! É óbvio que esta visão é muito mais um desejo de Krutwig do que a realidade histórica, ainda que se saiba do espírito comunitário e de entre-ajuda, muito comum entre os Bascos. Segundo ele, a esquerda espanhola e francesa enfermava do mesmo jacobinismo inerente aos partidos de direita.

Entre as várias contribuições teóricas de Krutwig saliente-se os escritos sobre táctica de guerrilha, influenciada pela experiência da FLN Argelina, baseada no combate urbano e no”maquis”, mas em permanente osmose com o tecido social, sendo que no primeiro caso, a guerrilha urbana, as células de combate deveriam ser compostas por comandos de três elementos, denominados de “hirurkos”,(grupos de três).

Por outro lado, José Echevarrieta, ou Etxevarieta, e por mais que isso hoje nos pareça estranho e descabido, introduz no combate etarra a metodogia de libertação nacional, inspirada pelo maoísmo, articulando-a com a luta de classes, no fim de contas nada de original para quem se confessava maoísta. Uma reflexão teórica, com correspondente prática no terreno, que devia muito mais a um voluntarismo idealista do que a uma leitura objectiva da realidade social da sociedade basca.

No final do ano de 1962 a organização já esboçava três tendências, a culturalista ou etno-linguística (Txillardegui), a nacional-revolucionária (terceiro-mundista) de Krutwig e a nascente marxista ou obreirista(Patxi Iturrioz). O início de um cortejo de cisões e divisões que serão o registo de todo o percurso histórico do nacionalismo basco independentista e radical, tão diferente das posturas mais comedidas e possibilistas do PNV. Importa salientar a produção, de forte pendor ideológico, de todos os documentos, programas e textos relacionados com a história abertzale, ainda hoje essa riqueza, algumas vezes “gongórica”, é manifesta nos debates e discussões internas, reveladores das tensões e diferenças existentes no “abertzalismo”.

Entretanto, o País Basco Francês (Iparralde), os do norte, representava o santuário e refúgio para os miltantes exilados e foragidos, é nesse contexto que é fundada, em 1969, a associação “Anai -Artea”, entre irmãos, com o objectivo de auxiliar todos os refugiados, de todas as tendências políticas. Até aos anos 80 Iparralde permaneceu como território de retaguarda. 

Continua…  

Miguel Angelo Jardim