Miguel Ângelo Jardim (o por demais conhecido das lides internéticas Miazuria) presenteia-nos desta feita com a 1ª parte de um artigo mais vasto e que visa “colocar os pontos nos i’s” sobre esta mesma questão, tão discutida mas tão pouco conhecida.
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Já se sabe da muita ignorância que por aí grassa, mas quando esta se Abraça à má-fé e ao mais primário preconceito ideológico a singela correcção é exigida. Vem isto a propósito de algumas interrogações suscitadas em torno da legitimidade existencial do nacionalismo basco, parecendo-me que alguns ainda se confundem na malha das suas incoerentes cogitações.
Sugere-nos a antropologia (José Maria Barandiarán, Larramendi), a linguística (Koldo Mitxelena, Friederich Von Humboldt e Van Eys) e a história (Francisco Letamendia, Garcia de Cortazar) que a nação(1) basca (Euskadi ou Euskal-Herria) identificada por um povo singular, com uma língua original, habitante de um território bem definido (Biskaya, Guipúzkoa, Araba ou Álava, Navarra ou Nafarroa, Labourde, Baixa-Navarra e Soule) existe desde a antiguidade.
O nacionalismo basco fixa a sua memória mais recente na continuidade etno-cultural e linguística dos bascos (euskaldunak). De outra parte, os forais, garantia da autonomia histórica e dos direitos locais do povo basco foram sempre uma referência política para aqueles que legitimamente reivindicaram e reivindicam o direito à autodeterminação. Mas sublinhe-se que as primeiras referências ao nacionalismo basco conhecem-se pela obra do escritor basco de Soule, Augustín Chaho, especialista em línguas orientais, hindólogo e profundo conhecedor do euskera, no volume editado em 1836, “Viajes por Navarra durante la insurrección de los vascos“. Humboldt, linguísta e politico alemão do século XIX, também nos fala explicitamente da existência da Nação Basca. Recorde-se ainda que o movimento Carlista atingiu a sua maior popularidade no País Basco e em Navarra porque precisamente pretendeu restabelecer os forais(fueros). Mais tarde, no século XIX, os forais, registo da especificade basca, “Deus e os Forais” (Jaungoikoa eta Fornak) servem de fundamento ideológico a Sabino Arana Goiri que os reinterpreta falando de “Deus e as Antigas Leis”(Jaungoikoa eta lege zarrak). Com o findar da terceira guerra Carlista, o político Cánovas del Castillo, da segunda metade do século XIX, derroga definitivamente os forais há muito atribuídos ao País Basco. Com a fundação do Partido Nacionalista Vasco (Euzko Alderdi Jeltzalea),em 31 de Julho de 1895, o nacionalismo Basco de uma certa forma institucioanaliza-se.
Já no século XX e até aos dias de hoje o Partido Nacionalista Basco assume-se como a maior força política de Euzkadi. É um partido de centro-direita, albergando diferentes tendências, sendo predominante a democrata-cristã. Ao longo da sua história as cisões mais significativas ocorreram em 1930 com a “Acção Nacionalista Basca” (Eusko Abertsale Akintza), “Ekin”, nos anos 50, que significa actuar ou agir em euskera, e que posteriormente deu origem à ETA, (Euskadi Ta Askatasuna), “Pátria Basca e Liberdade” e mais recentemente, em 1986, com a Solidariedade Basca (Eusko Alkartasuna). Uma curiosidade da sua organização interna são os “Batzoki” (Lugar Unido), centros sociais com múltiplas actividades e que funcionam como centros do partido mas que não se limitam a essa função.