Mitologia Lusitana
Dezembro 19, 2006, 7:55 pm
Filed under: Raízes

Atégina – Deusa Tripla: da Natureza, da Cura e Infernal. Identificada pelos romanos por Prosepina, daí ser considerada mais tarde, de Deusa Infernal, que desaparece no Submundo para depois renascer. Deusa de Turóbriga (Betúria Céltica), sede do seu culto, provém do céltico Ate- (irlandês antigo Aith) e gena, que significa Renascida , sendo uma Deusa da fertilidade e dos frutos da terra, que renascem todos os anos, portanto ligada à Terra e ao Renascimento. Era-lhe também prestado um culto devotio, que consistia em invocar, através de certas fórmulas, divindades para prejudicar alguém (da simples praga até à morte). Era, contudo, também Deusa Curadora, como comprovam muitas inscrições. Tal como Endovélico, poderá ter sido a divindade principal de uma Trindade, a sul do Tejo, juntamente com um Arenito (Deus da Força) e de Quangeio(?) (Deus da Fertilidade).  

Ares Lusitani – Deus adorado a Norte do Tejo. Os Lusitanos, segundo Tito Lívio e Estrabão, sacrificavam um bode e cavalos de guerra. É possível que exista uma estreita analogia entre a iniciação cavaleiresca e a simbólica do cavalo como veículo da demanda espiritual. Neste sentido, o cavalo era o símbolo do guerreiro, daquele que se eleva ao céu pelo seu triunfo ou pelo seu sacrifício. 

Bandonga – Deusa conhecida por uma inscrição que contém uma interessante referência a um indivíduo de nome Celtius, podendo aqui referir não tanto um nome próprio mas mais um nome de proveniência étnica, isto é, “dos Celtas”. O nome da Deusa parece comprovar esta teoria, pois Band significa em celta “ordenar” ou “proibir”, mas também um prefixo feminino (ainda hoje usado na Irlanda, com por exemplo em Banshee).  

Bormanico – Deus ou Génio tutelar das águas termais; equivalente a Esculápio. O seu nome significa “faço ferver”, isto é, a água que brota nas caldas. Esta entidade pode ter um carácter iniciatório. Com efeito, «na água tudo se “dissolve”, toda a “forma” se desintegra, a toda a “história” é abolida (…) A imersão equivale, no plano humano, à morte e no plano cósmico, à catástrofe (dilúvio) que dissolve periodicamente o mundo no oceano primordial (…) As águas possuem a virtude da purificação, de regeneração e de renascimento, porque mergulhado nela “morre” e, erguendo-se das águas, é semelhante a uma criança sem pecados e sem “história”, capaz de receber uma nova revelação (Eduardo Amarante, 1991). 

Cariocecus – Deus Lusitano da Guerra, equivalente a Marte (Ares). Segundo Estrabão, “ofereciam um Bode e os prisioneiros e cavalos (de guerra?)”. Como é sabido, os Lusitanos: “Tinham presságios da inspecção das vísceras dos prisioneiros de guerra, para o que os cobrem com saios…; cortando a mão direita dos cativos, consagram-nas aos Deuses”. 

Durbedicus – Nome decomposto em Durb (irl. ant. drucht, “orvalho”) + ed + icus, estes últimos sufixos comuns entre os celtas. Seria assim, “o Deus que goteja”, ou seja, um Deus ligado à àgua, de uma fonte ou do rio Avus, que passa perto de Ronfe, onde a inscrição foi encontrada. 

Endovélico – O mais conhecido dos Deuses Antigos da Lusitânia, semelhante ao Deus celta Sucellus (lê-se Suke-los) de cujo o culto existem vestígios. O seu templo no outeiro de S. Miguel da Mota, perto de Terena no Concelho do Alandroal, no Alentejo, foi estudado abundantemente. Investigações recentes mostram que Endovellico está presente numa área geográfica maior do que se julgava e revelaram inclusive novos locais de culto de origem nitidamente indo-europeia, pelo que a atribuição de Endovellicus aos celtas é por muitos aceite. Leite de Vasconcelos explicou que o nome céltico Andevellicus, compara-o com nomes galeses e bretões, dando-lhe o significado “o Deus Muito Bom” curiosamente o mesmo espíteto do deus irlandês Dagda. Atribui-se-lhe a característica de Deus tópico do outeiro onde seu culto se realizava e também de um Deus da Terra e da Natureza. De origens antigas, foi no período celta que melhor se definiu (e daí o seu nome céltico), tendo os romanos prestado homenagem e culto, como se comprova pelos numerosos ex-votos por eles deixados. Endovélico poderá ter sido o Deus principal de uma Trindade juntamente comAtégina e um Runesocesius. As provas arqueológicas remetem-nos para uma divindade do mundo subterrâneo dotada para a profecia e protectora da vida após a morte. Arcanjo Miguel assume, posteriormente, o papel de Endovélico, como patrono de Portugal (Lusitânia). 

Mars Cariociecus – Divindade local, cujo culto se fazia na região da Galiza (Tuy). Leite de Vasconcelos esgrime entre a hipótese do elemento cario provir do celta corio que significa corpo de tropas. 

Navia – ou Nabia, Deusa tal como Tongoenabiagus, é uma divindade da Água, associada a rios, pois existem vários com esse nome em alguns lugares em que apareceram as inscrições onde também passam rios. Significa “água corrente” 

Nantosvelta (Gaulesa) – Deusa da Natureza; esposa de Sucellus. 

Runesocesius – Deus da região eborense referido como Runesus Cesius, sendo a segunda partícula um epíteto. Atribuem-lhe origem céltica e significa “O Misterioso” do irlandês antigo Run-, “mistério”, e/ou de “armado de dardo”, que seria o seu epíteto segundo um mote celta. Ora, “O misterioso” pode ser considerado “O Deus”, sendo assim Runesocesius “O Deus dos Dardos” ou “O Misterioso armado do Dardo”. O seu carácter guerreiro é indiscutível. 

Sucellus (Gaulês) – Deus da Agricultura, das Forestas e das bebidas alcoólicas (é muitas vezes representado a carregar um barril de cerveja, (suspenso numa estaca), e um martelo de Deus. A sua consorte é Nantosvelta. 

Tongoenabiagus – Deus da(s) fonte(s) dos juramentos, (o seu nome significa Deus da fonte que se jura). Existe na cidade de Braga uma fonte dedicada a este Deus, pelas promessas feitas junto da mesma. Compreende-se, portanto, que se fizeram juramentos por Ele, junto da fonte(s) da sua Invocação. E quem jurava, diria pouco mais ou menos o que num texto antigo da Irlanda acerca do festim de Bricriu (Fled Bricrend) se diz: “tong a toing mo thuath” (juro o que jura o meu povo). Compreende-se assim, que se fizessem juramentos por Tongenabiago, junto da fonte da sua invocação. 

Trebaruna – Divindade inicialmente doméstica, passando depois para a sua função mais conhecida de Deusa Guerreira, da batalha e da morte em batalha. Muitas inscrições referem-se a esta característica da nossa deusa. O nome, explica-o d´Arbois de Jubainville, eminente celtista do princípio do século, porTrebo + runa, isto é, “Segredo da casa”.  

Turiacus – Divindade dos Gróvios (povo de Entre-o-Douro-e-Minho), decompõe o nome em Turius +
acus, e compara-o com uma inscrição irlandesa (Tor í rí no tighearna). É um Deus Poderoso, relativo ao poder, pois tor, significa, Rei ou Senhor.


17 comentários so far
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Só para quem acredita já merece ser admirarado, mas no meio de tanta imundice, onde diabos se meteram estes deuses todos, pagãos, cristãos….? Tretas inventadas por pobres de espirito.

Comentar por alfredo campos

Por acaso até sou ateu, não acredito em Deus, ou em Deuses, sejam cristãos ou pagãos (ainda que acredite menos no dos primeiros), Contudo, além de cultivar a história e a cultura dos meus antepassados, também tenho por hábito respeitar as crenças dos outros, o que lamentavelmente o Alfredo Campos não fez, talvez porque, no meio de tanta imundice, perdeu também os seus valores…

Comentar por arqueofuturista

Realmente fascinante. Adorava saber mais, mas a internet não aprofunda muito a mitologia lusitana. Se me quiserem informar, o meu email é: shivafaa@yahoo.com

Gostava também de saber que deuses adoptamos dos romanos e já agora, que lingua se falava na parte Lusitana da Hispania aquando do ultimo século de conquista romana?!

Obrigada.

Comentar por Vera Maia

Cara Vera, de facto não abunda a literatra sobre a mitologia lusitana, seja na net seja mesmo em edições em papel. Ainda assim aconselho a aquisição e leitura dos cadernos presentes no site da Causa Identitária, bem como o livro “Os lusitanos” de Vasco Rodrigues, ainda que este me afigure ser de difícil aquisição pela sua raridade. existem outras obras interessantes sobre Viriato de fácil procura e que contêm bastante informação sobre o modo de vida lusitano e do seu panteão.

Comentar por arqueofuturista

Obrigada, assim o farei.

Comentar por Vera Maia

Saúdo o camarada Arqueofuturista por ter publicado este tópico, mesmo sendo ateu, e sempre gostava de saber que provas tem Alfredo Campos de que estas Deidades não passem de «tretas».

Saudações especiais à Vera Maia pelo interesse que manifesta em querer conhecer a religiosidade ancestral que lhe cabe em herança.

Comentar por Caturo

Camarada Caturo, como sabes o meu ateísmo permite-me cultivar uma especial simpatia pelo paganismo europeu, não fosse essa a religião primordial dos nossos antepassados.

Um abraço identitário.

Comentar por arqueofuturista

Muito bom texto. O respeito pelas crenças dos outros e o estado laico também são bandeiras a defender.

Comentar por Vítor Ramalho

Nem mais Caro Vitor, a laicidade deverá ser sempre uma premissa basilar de qualquer estado, sempre e desde que uma religião, qualquer ela que seja, pelos seus princípios e actividades, não atente contra a própria laicidade desse estado. O Islão, pela sua génese totalitária, isto é, por ser portador de uma concepção do mundo que visa abranger e reger todos os aspectos da vida humana, é contrário ao espírito laico e dificilmente poderá ser aceite numa sociedade livre e respeitadora das demais crenças.

Comentar por arqueofuturista

Olha que isso da laicidade tem muito que se lhe diga…

Comentar por D. Sebastião II

Simplesmente fantástico.

Obrigado!

Comentar por Rui C. Barbosa

INTERESSANTE!!!!!!
EU COMO DESCENDENTE DE EUROPEUS (PARTE PORTUGUES, ITALIANO E ESPANHOL) REALMENTE TENHO O INTERESSE DE CONHECER E ESTUDAR MAIS A FUNDO A HISTÓRIA ANTIGA DE PORTUGAL, PRINCIPALMENTE ESTA ERA DA HISTÓRIA QUE DEU ORIGEM AO POVO PORTUGUÊS,PARABÉNS PELO BELO ARTIGO QUE FIZESTES SOBRE A MITOLOGIA LUSITÂNA.
ABRAÇOS E SAUDAÇÕES DE UM PAULISTA A TODO O POVO DE PORTUGAL.

Comentar por JOÃO PAULO

Tomei a liberdade de copiar este artigo para meu computador pessoal.
Se eu utilizá-lo será ou para tirar dúvidas com minha professora de História Ibérica da Universidade ou para fins religiosos e lhe darei os devidos créditos.

Obrigada e espero que não se incomode.

Abraços luso-brasileiros ^^”

Comentar por Luiza Fonseca

Extremamente interessante!!!
Tenho imensa pena que tão poucos trabalhos sobre os nossos antepassados sejam conhecidos.
Muito graças á falta de respeito para com a cultura na verdadeira acepção da palavra, que abarca não apenas datas e locais, como ideologias, culturas, religiões e crenças!!!
Fico surpreendidíssima quando vejo a falta de tacto e respeito para com quem tem o trabalho intelectual de reunir estas informações.
É graças a este género de pessoas, que muito
da nossa cultura ancestral foi perdida para trás de 1093.
Aguardo actualizações :)

Comentar por Carla Santos

Saudações! Sou Ateu, mas no meio de todas as religiões, as pagãs, são de longe as mais verdadeiras e puras pois representam a natureza, as colheitas, o sol, a lua, a noite, o dia, os animais etc.. Intervinientes que realmente interessam para o bem estar, e para a necessidade de vida.

Comentar por Gil Saraiva

Provavelmente um dos melhores artigos de ja encontrei… no entanto, estou curiosa, ja foi feita alguma relação entre os lusitanos e o deus lugh (deus celta, penso)? Estou certa de ter lido algo deste estilo num livro de Juan G. Atienza, um livro mais obscuro de cujo titulo nao me recordo. Referia lusitanos como adoradores de lugh, e tambem fazia a relação lugh luz iluminação, ie, acesso ao conhecimento. A serpente, enquanto animal que simboliza a dadiva ou de conhecimentos ou a sua preservação, simbolo da civilização Ophiussa, os homens serpentes, que habitou na zona da lusitania.
São o mesmo povo? Eu penso que estao intrinsecamente relacionados, mas se souber mais alguma coisa agradecia realmente que me informasse visto estar a tentar compreender o panteão lusitano, com vista a usar a sua sociedade para escrever um livro.

Comentar por Inês Bravo

Será que é possivel encontrar imagems das respectivas figuras mitológias, acima salientadas?

Comentar por Lvsitani




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