A Guerra Lusitana
Novembro 20, 2006, 7:50 pm
Filed under: Raízes

Em 155 a.C., um numeroso grupo de lusitanos e de vetões, chefiados inicialmente por Púnico e depois por Césaro, atacou as regiões meridionais da Hispânia Ulterior.

Entre 155 e 150 a.C., os combates sucederam-se, sendo frequentemente favoráveis aos Lusitanos. Finalmente, em 150 a.C., uma acção concertada dos governadores da Ulterior e da Citerior permitiu infligir aos atacantes uma pesada derrota que os forçou à paz. Sérvio Sulpicio Galba concedeu aos 30.000 guerreiros Lusitanos 3 locais de residência diferentes, a partir dos quais conseguiu chacinar 8.000, e aprisionou mais alguns milhares.

De onde viriam estes Lusitanos? É sabido que os historiadores romanos frequentemente exageravam nas cifras que transmitiam, pelo que é bastante razoável assumir que estes Lusitanos corresponderiam provavelmente a bandos desorganizados de guerreiros.

Esta guerra não terá começado como uma simples operação de pilhagem e saque. Ela é o reflexo natural das necessidades de reenquadramento territorial das populações pressionadas por diferentes movimentações de povos.

Os Lusitanos em movimento pretenderiam antes de mais, ocupar novos territórios em virtude de uma provável falta de espaço físico nas suas terras de origem.

Parece que estas movimentações conheceram uma época de particular intensidade na 1ª metade do séc. II a.C., para nunca mais voltarem a ter a mesma dimensão.

É possível com os confrontos com os Romanos tenham provocado uma brutal queda demográfica. Uma razia entre os varões não deixaria de se repercutir no crescimento da população nas décadas seguintes.

Deve-se salientar que os exércitos Lusitanos não passavam de bandos isolados e desorganizados. Só os Romanos constituíam uma entidade política organizada. Esta situação fornece a tónica geral para o que seria denominada de “Guerra Lusitana”, e que é descrita pelas fontes literárias como “um incêndio que teimava em se reacender”.

Após a matança promovida por Galba, parece ter-se sentido um curto período de acalmia. No entanto, em 147 a.C., um novo bando de lusitanos irrompeu na Ulterior, forçando o governador romano Vetílio a propor uma nova distribuição de terras onde os Lusitanos se pudessem instalar.

Nessa altura interveio Viriato, ao que parece, um sobrevivente da primeira matança, que relembrou a traição anterior dos romanos. Aclamado como chefe pelo grupo, Viriato consegue atrair o governador a uma emboscada, onde o venceu e matou.

Os Romanos reagiram, enviando um exército composto por mercenários celtibéricos, que por sua vez também foram chacinados. Seguiram-se uma série de vitórias lusitanas ao longo do ano seguinte (146 a.C.), o que lhes permitiu fixarem-se na Andaluzia e na periferia desta província.

Os guerreiros hispânicos, armados com as suas longas lanças e com os seus mortíferos gladius hispaniensis perfeitamente adequados a uma guerra de guerrilha, não davam qualquer hipótese à infantaria romana habituada às batalhas ortodoxas travadas em campo aberto com exércitos bem alinhados.

O mito de Viriato começou no séc. I a.C., devendo a sua origem aos historiadores Posidónio e Diodoro.

Ambos transmitem-nos uma imagem de um herói puro e justo, não corrompido pelos valores da civilização. Portugal reclamou para si o herói e o seu local de nascimento. Terá nascido segundo a lenda, no Monte Hermínio, que se julga ser a Serra da Estrela. Terá sido um dos sobreviventes do massacre de Galba, e participou na expedição de 147 a.C..

Casou com a filha de um terratenente indígena, e instalou-se em várias cidades das regiões meridionais durante a guerra com os Romanos, o que sugere alguma familiaridade com o mundo mediterrânico peninsular.

A guerra continuou, localizada sobretudo na Andaluzia, tendo havido uma excepcional expedição que alcançou a Citerior em 146 a.C.. Entretanto, em 143 a.C. estala de novo a guerra na Citerior quando o governador Quintus Cecilio Metelo atravessa a Celtibéria e ataca os Vetões com o intuito de impedir que estes abastecessem os seus adversários pela retaguarda.

O ano de 140 a.C. foi crucial. O governador da Ulterior, Fábio Serviliano, após saquear várias cidades fiéis a Viriato na Andaluzia, é por ele vencido em Erisane, e por outro lado, Quinto Pompeio falha pela segunda vez a tomada de Numância na frente da Citerior.

Face a estes desaires, os romanos são forçados a assinar a paz: Roma fica com a posse das terras hispânicas já conquistadas, mas renuncia à conquista de mais territórios na Península Hispânica. É uma humilhação que o Senado romano é forçado a engolir.

Esta situação de paz quase forçada deve ser compreendida como o resultado de uma guerra em larga escala, que teimava em desgastar os exércitos de Roma.

Se por um lado havia em Roma uma corrente política pacifista, por outro lado, havia no Senado uma corrente belicista (encabeçada pela família dos Cipiões). Graças aos esforços desta família, Roma tinha invadido e destruído Cartago em 146 a.C., após 4 anos de cerco, transformando o norte de África numa província romana, e para oriente criaram uma nova província no antigo reino da Macedónia.

No entanto, a guerra peninsular não trazia os dividendos da guerra na Grécia ou no norte de África. Desde 152 a.C. que Roma tinha uma grande dificuldade em recrutar legionários para as guerras peninsulares, e ao que parece, uma vez na Península, as legiões evitavam propositadamente o contacto com os habitantes locais.

A corrente belicista acaba por vencer, e no ano seguinte Roma rompe as tréguas, exigindo a vitória incondicional. Na Ulterior, Quintus Servílio Cipião desencadeia uma ofensiva fulgurante que força Viriato a retirar para norte do Tejo, para junto de Badajoz.

As fontes referem que o ataque romano também incluiu um ataque contra os Vetões e os Galaicos. Face ao avanço do general romano, Viriato vê-se obrigado a enviar três emissários para negociar a paz – Audax, Ditalco, e Minuro -, que são aliciados por Cipião com enormes quantidades de ouro para assassinarem o chefe luso.

Viriato é assassinado durante a noite na sua própria tenda, por aqueles em quem confiava. No seu regresso ao acampamento romano, os três traidores ouviram da boca do próprio Cipião que “Roma não paga a traidores”.

Viriato ficou para a História, a par de Espártaco, como um dos poucos que conseguiu pôr Roma de joelhos enquanto travava uma guerra justa pela liberdade do seu próprio povo. E esteve quase a consegui-lo.

Após a morte de Viriato, o exército lusitano agora comandado por Tautalo sofre uma última derrota a sul do Tejo, vendo-se obrigado a negociar a paz, fixando-se por este meio alguns lusitanos no sul do actual território português.


5 comentários so far
Deixe um comentário

Eram tres os traidores e um o heroi!
Primos, irmãos, amigos…todos da mesma tribo e a percentagem “será sempre de três para um” !
A nossa causa é a nossa verdadeira Pátria. O nosso camarada é aquele que luta a nosso lado.

\o

Comentar por Legionário

Palavras sábias caro Legionário.

Comentar por arqueofuturista

este descurso ta lindo

Comentar por miguel

conta mais…

Comentar por Anónimo

a historia e linda

Comentar por catarina




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