Os Indo-europeus
Outubro 12, 2006, 5:21 pm
Filed under: Raízes

Chamamos indo-europeus a todos os povos e culturas nos quais são faladas as línguas indo-europeias. A elas pertencem todas as línguas europeias, à excepção das línguas fino-úgricas (o lapão, o finlandês, o estónio e o húngaro), além da língua falada no País Basco. A maioria das línguas indianas e iranianas também pertence à mesma família das línguas indo-europeias. Os indo-europeus primitivos viveram há mais ou menos quatro mil anos, provavelmente nas proximidades do mar Negro e do mar Cáspio. Dali, sairam em grandes levas para o sudeste – rumo ao Irão e à Índia -; para o sudoeste – Grécia, Itália e Espanha -; para o oeste, atravessando a Europa central até a Inglaterra e a França; para noroeste, rumo à Escandinávia; e para o norte, rumo ao Leste Europeu e à Rússia. Por toda a parte, os indo-europeus misturaram-se com as culturas pré-indo-europeias, sendo que a religião e a língua dos indo-europeus foi o elemento que acabou predominando nesta fusão. Tanto os antigos livros sagrados da Índia, os Vedas, quanto os escritos da filosofia grega e mesmo a mitologia de Snorre Sturlas-son foram escritas em línguas de uma mesma família. Mas não são apenas as línguas que se parecem. Às línguas aparentadas pertencem também pensamentos aparentados. Por esta razão é que em geral falamos de um círculo cultural indo-europeu.

 

A cultura dos indo-europeus era marcada sobretudo pela crença em muitos e diferentes deuses. Chamamos a isto de politeísmo. Em toda esta extensa área de influência indo-europeia encontramos nomes de deuses e diferentes termos e expressões religiosos. Vou citar alguns exemplos: Os antigos indianos adoravam o deus celestial Dyaus. Em grego este deus se chama Zeus; em latim, Júpiter (na verdade iov-pater, ou seja, “Pai Celestial”); e em norueguês antigo, Tyr. Os nomes Dyaus, Zeus, Iov e Tyr são, portanto, variantes da mesma palavra. Talvez você saiba que os viquingues, no Norte da Europa, adoravam deuses que chamavam asen. Em toda a área de influência indo-europeia também encontramos uma palavra para designar “deuses”. Em sânscrito, os deuses chamam-se asura; em iraniano, ahura. Outra palavra para deus em sânscrito é deva; em iraniano, daeva; em latim, deus; e em norueguês antigo, tivurr. Também podemos constatar uma nítida afinidade entre alguns mitos em todo este círculo indo-europeu. Quando Snorre conta sobre os antigos deuses nórdicos, alguns mitos lembram mitos indianos que já haviam sido contados dois ou três mil anos antes. É claro que os mitos de Snorre são marcados pelo cenário natural nórdico, enquanto os indianos se desenvolvem sob o pano de fundo da natureza da Índia. Mas muitos desses mitos possuem um núcleo que aponta para uma origem comum. Um desses núcleos pode ser constatado de forma evidente nos mitos das poções da imortalidade e na luta dos deuses contra os monstros do caos. Mas também nas formas de pensar podemos ver claras ligações entre as culturas indo-europeias. Um ponto comum típico é o facto de elas conceberem o mundo como um imenso palco, no qual se desenrola o drama da luta incessante entre as forças do bem e do mal. Por esta razão, os indo-europeus sempre tentaram “predizer” o que iria acontecer com o mundo. Podemos muito bem dizer que não é por acaso que a filosofia grega surgiu exactamente neste espaço cultural indo-europeu. As mitologias grega, indiana e nórdica apresentam princípios claros de um tipo de observação filosófica, ou “especulativa”, do mundo. Os indo-europeus tentavam “entender” o desenrolar da história do mundo. Prova disto é que podemos encontrar em todo o espaço cultural indo-europeu uma palavra determinada que, em cada cultura, significa “compreensão” e “conhecimento”. Em sânscrito esta palavra é vidya, palavra idêntica à palavra grega ide, que – como você já sabe – foi de grande importância para a filosofia de Platão. Do latim conhecemos a palavra video, que para os romanos significava simplesmente “ver”. No inglês temos palavras como wise e wisdom (“sabedoria”); em alemão, Weise (“sábio”) e Wissen (“saber”, “conhecimento”). Em norueguês temos a palavra viten. A palavra norueguesa viten tem, portanto, a mesma raiz da palavra indiana vidya, da grega ide e da latina video. De um modo muito geral, podemos dizer que a visão era o principal sentido para os indo-europeus. Entre os indianos e gregos, iranianos e germânicos, a literatura era marcada por grandes visões cósmicas. (E aqui aparece de novo a palavra “visão”, que vem do verbo latino video.) Além disso, eram comuns nas culturas indo-europeias as representações dos deuses e das passagens descritas nos mitos em quadros e esculturas. Por fim, os indo-europeus tinham uma visão cíclica da história. Isto significa que, para eles, a história se desenrolava “em círculos”, da mesma forma como temos a alternância das estações do ano. Não há, portanto, um verdadeiro começo para a história, assim como também não haverá um fim. O que encontramos frequentemente são referências a mundos que surgem e desaparecem, numa alternância infinita entre nascimento e morte. As duas grandes religiões orientais – o hinduísmo e o budismo – são de origem indo-europeia. O mesmo vale para a filosofia grega. Por esta razão, podemos ver muitos e evidentes paralelos entre o hinduísmo e o budismo, de um lado, e a filosofia grega, de outro. Ainda hoje o hinduísmo e o budismo são fortemente marcados pela reflexão filosófica. Não raro se enfatiza no hinduísmo e no budismo o facto de que o elemento divino está presente em tudo (panteísmo) e de que o homem pode chegar a uma unidade com Deus por meio do conhecimento religioso. (Você ainda se lembra de Plotino, Sofia?) Na maioria das vezes, a condição para isto é a meditação, ou um profundo mergulho dentro de si mesmo. No Oriente, portanto, a passividade e a vida reclusa são vistas como ideais religiosos. Também em solo grego muitas pessoas diziam que o homem tinha que viver uma vida ascética – quer dizer, em reclusão religiosa -, se quisesse obter a redenção de sua alma. Alguns componentes da vida nos conventos da Idade Média têm suas origens em tais concepções do mundo greco-romano. Em muitas culturas indo-europeias a crença na metempsicose, ou transmigração da alma, era muito importante. Por exemplo, no hinduísmo, o objetivo de cada devoto é o de um dia conseguir libertar sua alma desse processo de transmigração. E nós já sabemos que Platão também acreditava na transmigração da alma. 

Jostein Gaarder O mundo de Sofia” (Páginas 167-169)


15 comentários so far
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Interessantíssima visão (lá está… ;)) da espiritualidade indo-europeia, assente no conhecimento e na apologia do conhecimento, prenunciando o desenvolvimento cultural e filosófico dos povos de raiz indo-europeia.

Não é por acaso que, nos panteões indo-europeus, os Deuses mais elevados são normalmente ligados especialmente à Sabedoria.

Comentar por Caturo

oi,,, meu nome e marina ….estou fazendu um trabalho sobro o ancient india…….
masi tipo essa trabalho esta muito completo…..
mais eu gostaria d saber se voces podem me ajudar….

porque nao teo oq eu quero….

o tema ehh….

Quem eram os Indo-europeus?

Comentar por marina

Dá-se o nome de indu-europeus a um conjunto vasto de grupos humanos que falam um dos numerosos idiomas relacionados com sânscrito (conjunto das 23 línguas oficiais da Índia) .

Comentar por Polly

ou pelomenos fazer um resumo…..

bjs
….

muito obrigado!!!!

Comentar por marina

MENTIRA PURA
O OTARIO Q ESCREVEU ISSO AI É UM BABACA
nao se deve classificar os orientais como indo-europeus,como caucasiano,totalmente equivocado
é outra origem

Comentar por fabio

Origem alienígena?

Comentar por Rafael

Querido, então esclareça vc…se é q vc sabe! mas não denigra o trabalho dos outros.

Comentar por Safhira

querido, otario é vc primeiramente pela rudeza de sua expressividade. entendi o texto acima criticado por vc de uma forma que vc devido talvez a dificuldades cognitivas ou ignorancia historiografica certamente não pode alcançar culturalmente falando. ele retrata sabiamente a vertente indo europeia que se espalhou pelo continente europeu e pelos territorios do atual irâ e india, dai a denominação indo europeus. O que ele retrata posteriormente, que vc por total incapacidade pessoal não apreendeu, é uma relação possivel de influencia religiosa e filosofica indo europeia que, possivelmente, possa ter sido levada muito depois por outros ramos, por exemplo o imperio macedonico de alexandre magno, que introduziu a cultura helenica a qual nada mais é do que uma herança indo europeia. conseguiu captar agora a intenção? pois bem, aconselho portanto que na proxima vez que poste algo aqui ou em qq lugar, primeiramente, posicione-se como alguem com o minimo de ecucação e, depois, embase a sua critica em argumentações paupaveis da forma que é exigida em uma analise historiografica tanto no que diz respeirto à construção de algo novo quanto à critica de algo já existente. sem mais fico esperando que isto sirva de ajuda ao senhor.

Comentar por Anónimo

no brasil se falava indu-europeu ???

Comentar por shirlei

Muito bom teu texto. Bem interessante. Eu usei-o como referência no meu blog neste post: http://fantasticocenario.wordpress.com/2009/11/25/deus-fez-o-homem-a-sua-imagem-e-semelhanca/. Me poupou uma grande explicação hehehe.
Mais uma vez, parabéns pelo texto. Espero que essas pessoas que aqui comentaram estejam brincando ou não leram o texto até o fim…
Abraço!

Comentar por Rafael

Eu sou um curioso desse tema de identidade e raiz cultural. Minha experiência de estudo me levou às mesmas conclusões sobre fortes pontos de identificação entre culturas que parecem diversas (gregos e hindus, por exemplo). Acho que ainda há muito a descobrir nesse campo.

Comentar por Sergio

Ótimo !!! Faço um curso de teologia (nível médio) e estamos estudando uma matéria chamada apologética , na qual estudamos várias seitas e religiões,entre elas o hinduísmo e os vedas…Portanto,imaginem vocês,como é elucidante e proveitoso esse texto !!! Sou membro da Assembleia de Deus e o nome do curso que faço é EETAD (Escola de Educação Teológica das Assembleias de Deus)!!! Já imprimi o texto e vou levá-lo amanhã para o nosso seminário !!! Certamenta vai ajudar muito na aula !!! Obrigado!!! Que o Senhor Jesus te abençoe grandemente!!!

Comentar por Eder Eudes da Silva

Muito bom. Tá correto dentro da visão historiográfica e é importante ressaltar que o termo “indo-europeu” diz mais sobre a língua do que a etnia.

Comentar por Matheus Galli Nacli

Indo-europeus está relacionado ao idioma e não a grupos etnicos. Como os etruscos, hititas, aqueus, persas, entre outros e suas diversas religiões e culturas. Os aqueus, estabeleceram-se na Grécia, mas ja existiam outras etnias como os jonios e os eólios.
O seu texto nos leva a crer que eles iniciaram essas religiões. E os habitantes destes locais? Não tinham eles uma religião, um culto? É possível que eles tenham aprendido com os povos dominados como aconteceu com os aqueus na ilha de Creta.
E as religiões em si, onde estas são parecidas. Palavras parecidas não nos diz muito.
Pequena História das Grandes Religiões -Félicien Challaye.
Ou algum de Mircea Eliade.

Comentar por Aldo

Acredito que para a linguística é razoável, que dentro do campo do conhecimento há algumas conexões e acréscimos (visto que o conhecimento foi utilizado e desenvolvido), porém as religiões supra citadas é mas uma questão de fugalidade, manobra e manutenção política, históricamente falando

Comentar por Anónimo




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