O Proto-indo-europeu
Setembro 14, 2006, 5:01 pm
Filed under: Raízes

O jurista inglês Sir William Jones foi o primeiro homem a propôr, em 1786, que o sânscrito (língua antiga da Índia), o latim e o grego possuíam semelhanças que não poderiam ser fruto apenas do acaso e que seriam derivadas de um mesmo ancestral há muito perdido.Em 1822, Jacob Grimm (sim, trata-se do mesmo Grimm que escreveu, junto com o seu irmão Wilhelm, contos infantis como “Branca de Neve e os Sete Anões”) publicou as chamadas “leis de Grimm”, que mostravam correspondências sonoras do tipo:

Germânico p t k b d g f th ch
Latim b d g f f h p t c
Grego b d g f q c p t k

Estas correspondências podiam ser demonstradas por exemplos como:

Germânico (gótico) Latim Grego  
thrija tres treiV “três”
do fac- qh “fazer”
twa duo duo “dois”
fotus pedis podoV “pé”
daur foris qura “porta”
ik ego egw “eu”

Os linguistas puderam, então, reconstruir os sons originais do idioma que chamaram de proto-indo-europeu, a língua ancestral falada há mais de 5 000 anos:

PIE Germ. Latim Grego
*p f p p
*t th t t
*k ch c k
*b p b b
*d t d d
*g k g g
*bh b f f
*dh d f q
*gh g h c

É preciso lembrar que existem exceções para estas correspondências.

Por exemplo, a mudança não ocorre em germânico se a consoante for precedida por uma fricativa, como s. Assim, o latim sta- corresponde ao germânico (inglês) stay, ao invés de sthay. Em latim, os sons aspirados (bh, dh, gh) podem apenas perder a aspiração, como na palavra fiber “castor”, que corresponde ao germânico *bebr- (inglês beaver), ambos derivados de *bhebhr- (isso é comum quando há mais de uma consoante aspirada na mesma palavra).

Todas essas exceções, no entanto, podem ser explicadas de uma maneira sistemática, e, de facto, assim o foram com a publicação de novas “leis”, como a “lei de Werner” – que previa a sonorização de consoantes fricativas em germânico antes de sílabas tônicas.

Centum versus Satem

As línguas indo-europeias dividem-se (à primeira vista) em línguas Centum e Satem. Nas línguas Centum (pronuncia-se “kentum”), as consoantes velares do proto-indo-europeu (k, g, gh) permanecem inalteradas, enquanto que nas línguas Satem elas são palatalizadas (aparecem como s, z, sh, ch ou j). Um exemplo:

PIE Centum Satem  
*gen- grego gnw sânscrito jana- “conhecer”
*ekwo- latim equus sânscrito awva- “cavalo”
*kwon- latim canis sânscrito wvana- “cão”
*kwetwor- latim quattuor sânscrito catvarah “quatro”
*egom latim ego avestano azam “eu”

Note-se que o C sânscrito é pronunciado “tch” e o W é pronunciado “sh”.

As línguas do grupo Satem são as indo-iranianas e eslávicas, o que levou os linguistas a classificarem erroneamente as línguas Satem como orientais e as Centum como ocidentais. A descoberta do tocariano, uma língua Centum falada nas proximidades da China, mudou esse ponto de vista.

A “Indo-Europa” e os “indo-europeus”

Pelo vocabulário reconstruído do proto-indo-europeu é possível conhecer a cultura do povo que o falava (os “indo-europeus”). A presença de uma palavra para “cavalo” e uma para “neve”, por exemplo, nos permite saber que os “indo-europeus” domesticavam cavalos e viviam num lugar onde havia neve (ou, numa hipótese menos fantasiosa, que pelo menos conheciam esses dois elementos…). Esta, aliás, é uma das tarefas dos indo-europeanistas: descobrir o local onde o proto-indo-europeu era falado, e de onde se espalhou pela Europa e Ásia.

Existem várias possibilidades para a localização da chamada “Indo-Europa”:

  • Na península da Anatólia (actual Turquia), onde foi registada a mais antiga língua indo-europeia (o hitita);
  • A Noroeste do Mar Negro (próximo da Grécia);
  • A Norte do Mar Cáspio (próximo do Cáucaso), nas planícies da Rússia.

3 comentários so far
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Mais uma razão óbvia para a existência de uma Federação Eurosiberiana.

Bom trabalho!

Comentar por WW

Vc sabe menção de algum tradutor ou dicionário?

Comentar por mayck

òtimo texto ,
Só uma correção , os irmãos GRIMM não escreviam contos, eles pesquisavam e publicavam contos antigos europeus, contos tradicionais que nunca haviam sido publicados.

Espero ter contribuido.

Fabio P. Leme

Comentar por Anónimo




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