Sobre o Euskera.
Por desconhecimento das mínimas regras da linguística ou por obtusa e sectária arrogância, se pode escrever que o Euskera não é uma língua! Não se deve falar ou escrever do que não se sabe… Seria o mesmo que dizer que o alemão ou o italiano, idiomas fixados a partir de alguns dialectos, entre muitos, também não teriam o direito ao estatuto de línguas literárias e de cultura. Um absurdo! Aliás, todas as línguas Europeias resultaram da osmose criadora e docompromisso entre a linguagem popular e a decisão unificadora de académicos, gramatólogos, e linguístas.
Não é aqui ocasião para me debruçar exaustivamente sobre a complexidade e a riqueza lexical do Euskera, deixarei apenas algumas notas reveladoras a propósito da originalidade desse idioma. O Euskera permanece inclassificável em termos de famílias e de grupos linguísticos. É talvez a única língua do mundo completamente isolada, não tendo parentesco com nenhuma outra. Avançaram-se hipóteses de associação com o Georgiano e outras línguas do Cáucaso, recorde-se que o nome antigo para a região da Geórgia era de Iberia. Outros tentaram encontrar similitudes com línguas Berberes (Tamazeght), outros ainda, numa viagem de fantasia, com a língua dos Ainu, habitantes originários do Japão (Hokaido). Incursões infrutíferas, pois o Euskera, Euskara para os Bascos, continua solitário na sua singular complexidade.Mais ou menos consensual é o facto de se saber que o euskera pertence às línguas Ibéricas pré-românicas, tese de Guilherme Humboldt, sendo a única que resistiu à romanização e às influências do árabe.O Euskera actual (Euskera batua) em Português, euskera unificado, resulta de um processo de uniformização baseado nos dialectos de Guipúzkoa, Labourdino, e da Baixa-Navarra, este último com menor influência. Os outros dialectos são: Biscayno, Alta-Navarra e, por último, de Soule, o dialecto Roncale considera-se extinto. Os de Alta-Navarra e Baixa-Navarra, estão sub-divididos em dois sub-dialectos.
A unificação da língua deve-se ao labor de alguns linguístas e gramatólogos, como Koldo Mitxelena, António Tovar e Manuel Agud, o poeta Gabriel Aresti, entre outros, sob a égide da “Euskaltzaindia” (Real Academia da LínguaVasca) e da “Eusko Ikaskuntza” (Sociedade de Estudos Bascos). Estas duas instituições ao nível da pesquisa linguística e do estudo da cultura Basca e, por outro lado, a rede cooperativa das “IKastolas”, escolas comunitárias que ministram todo o seu ensino em euskera.
O euskera, como já referi, possui características únicas, é uma língua aglutinante, como são também o Húngaro, o Turco, o Finlandês e o Estónio, baseia-se do ponto de vista da sua morfologia em sufixos, em detrimento dos prefixos, possui doze declinações, a saber, dos substantivos, adjectivos, e pronomes. Aflexão verbal é bastante complexa, estando os verbos divididos em dois grupos: transitivos e intransitivos. A fonética é simples.
A sua literatura é rica e multifacetada, salientando-se os “Bertsolari” poetas populares, expressão verbal de uma enorme riqueza “volkisch” . Os primeiros registos literários chegam-nos do século XVI, Joanes Leizarraga, com a tradução do “Novo testamento”, em 1571, escritos de Esteban de Garibay, depositados na Biblioteca Nacional, em Madrid. Nos séculos seguintes, até ao século XX, sobressaiem os seguintes autores, JoanesEtcheberri, Rafael Micoleta, Bernard Gasteluzar, o jesuíta Manuel de Larramendi (1690-1766), Pablo Pedro de Astarloa, Juan Ignacio de Iztueta, no século XIX, Agustin Chaho, o príncipe Louis-Lucien Bonaparte, grande impulsionador das letras bascas, José António de Uriarte, Arturo Campión, notável filólogo, José Manterola, etc.
O século XX, representa uma viragem na literatura basca, para isso contribuiu bastante o “euskera batua” já que nos séculos anteriores a produção literária resumia-se aos diferentes dialectos. As figuras principais do século passado, alguns deles vivos e ainda hoje escrevendo, foram: Resurrección Maria Azkue, etnólogo novelista, dramaturgo e filólogo(autor do dicionário monumental Francês-Euskera e Euskera-Francês, Domingo Aguirre, Julio de Urquijo e Ibarra, Gabriel Aresti, escreveu a obra fundamental “Harra eta Herri”, A Pedra e a Terra, Nicolás deOrmaechea, o extraordinário e original poeta, pagão, declaramente nacional-socialista, Jon Mirande, que se suicidou no Natal de 1972, o já citado José Luís Alvarez Emparanza “Txillardegui”, o filósofo e ensaísta Mikel Lasa, engenheiro de informática por formação, Juan Juaristi, o novelista Ramón Saizbirtoria, pleno de originalidade e renovador estilistico do euskera, e, finalmente, a grande revelação, talvez o escritor mais conhecido em Euskera, Bernardo Atxaga, autor de “Obabakoak” traduzido em dezenas de línguas estrangeiras.
“Bizi dadin Euskara orai eta beti”(Que o euskara viva agora e para sempre).
Continua
Miguel Angelo Jardim
5 Comentários até agora
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No te enrolles Charles Boyer……..!
Comentário por jibraltar español Abril 7, 2007 @ 10:40 pmJardim, si quieres emular a Jon Mirande, te comunico que tengo una soga muy resistente……….
Comentário por jibraltar español Abril 8, 2007 @ 9:25 amAmigo Miguel pelos vistos estás a tocar num tema que incomóda alguns, mas interessa à maioria dos leitores do nosso camarada Arqueofuturista.
Agur.
Comentário por social-patriota Abril 10, 2007 @ 6:36 pmEuskera maitea :)
Comentário por maria Abril 30, 2007 @ 9:38 amEskerrik asko, Maria!
Miazuria (Miguel Angelo Jardim)
Comentário por Miazuria Junho 3, 2007 @ 9:33 am